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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

TOBIAS E O SUMO SACERDOTE


São constantes nas conversas e sermões em nossas comunidades as referências às igrejas neopentecostais, não apenas pela interpretação que fazem da Bíblia, mas também pelo uso e direcionamento dado por elas aos recursos obtidos através das ofertas dos seus fiéis. Não nos deixemos, contudo, cair na tentação fácil de olhar apenas para as práticas comuns a denominações adeptas da teologia da prosperidade, mas foquemos, antes (Mt 7:3-5), nossas igrejas históricas tradicionais, procurando nos concentrar no segundo aspecto, o do uso inadequado dos recursos devolvidos a Deus em forma de dízimos e ofertas. Não vamos nos ater aos casos clássicos de uso da fé para ganhar dinheiro, mas àquelas ações por vezes pequenas, discretas e habituais, que agridem o evangelho, não sendo percebidas pela maioria das pessoas, mas que saltam aos olhos e trazem indignação àqueles cujo mover do Espírito se traduz em discernimento, temor e apego fiel à Palavra.

A Palavra de Deus faz um relato que, se trazido aos nossos dias, pode gerar reflexões importantes e, principalmente, arrependimento e correção de práticas erradas para com os recursos do Reino de Deus e da sua Igreja. Ela conta que em determinado momento da experiência do povo de Israel após a volta do exílio babilônico, Eliasibe, o sumo sacerdote judeu, ao se tornar parente de um homem chamado Tobias, passou a beneficiá-lo, tomando um espaço do pátio da Casa de Deus e transformando-o numa grande câmara mobiliada para seu novo aparentado (Ne 13:4-14). Tal fato se deu durante a ausência de Neemias de Jerusalém, uma vez que o servo de Deus se encontrava na Babilônia, em audiência com o rei Artaxerxes. Ao voltar a Jerusalém Neemias tomou conhecimento do que havia acontecido, segundo a descrição bíblica que segue: Então, soube do mal que Eliasibe fizera para beneficiar a Tobias, fazendo-lhe uma câmara nos pátios da Casa de Deus. Isso muito me indignou a tal ponto, que atirei todos os móveis da casa de Tobias fora da Câmara.  (Ne 13:7,8)

O sacerdote havia beneficiado alguém próximo (parentes, amigos ou apoiadores) com uma parte do templo e com recursos deste. Ao mesmo tempo, como é comum nesses casos, reteve e desviou os recursos, os quais deveriam se destinar à execução dos rituais litúrgicos, e à manutenção dos levitas e dos sacerdotes - o ato errado de privilégio tem como outra face a injustiça e o desrespeito para com outras pessoas. Tais ações condenáveis tinham consequências práticas e públicas, uma vez que eram visíveis e prejudicavam diretamente a muitos (Ne 13:10). Entretanto, apesar de perceptíveis por um grande número de pessoas, as medidas infames tomadas pelo sumo sacerdote não foram recriminadas, ou se o foram, não tiveram força suficiente para impedir sua consecução. Aparentemente o mal estava feito e era inexorável. Mas havia Neemias, e com ele o discernimento, a coragem e a intrepidez daqueles cujo único compromisso é com a Palavra de Deus, e não com os interesses e conveniências dos homens; ele corrigiu o rumo daquela situação de maneira enérgica e definitiva, jogando os móveis para fora, purificando as câmaras e restituindo os lugares dos levitas, bem como tudo o que lhes era destinado. Nos dias de hoje, o ponto levantado por Neemias foi adotado pela Ciência Contábil como um princípio norteador: o Princípio da Entidade, que enfatiza a necessidade de separação do patrimônio dos sócios ou proprietários do patrimônio da entidade, seja ela de que origem for. Por trás de tal princípio está o ideal de transparência, clareza e fidedignidade no uso dos recursos e nas informações prestadas a todos os interessados.

Neemias, após arrancar os móveis da câmara, contendeu com os oficiais e magistrados, arguindo-os: Por que se desamparou a Casa de Deus? (Ne 13:11) O questionamento mostra que aqueles homens, pela função que exerciam, deveriam ter agido preventiva ou reativamente para impedir o mal, e não o fizeram; deveriam ter agido com firmeza ao detectarem a arbitrariedade, a dissimulação e o autoritarismo do sacerdote, características que passam longe do evangelho de Cristo. Após inquirir aquele conselho, e para a vergonha dos que o compunham, o servo do Senhor tratou de reestabelecer ele mesmo os levitas aos seus antigos postos. De modo a concertar o erro causado pela má-fé de Eliasibe e pela inação dos oficiais, Neemias colocou quatro pessoas irrepreensíveis e dignas de confiança (entre sacerdotes, escribas e levitas) para cuidarem dos depósitos e da distribuição de suprimentos aos seus colegas. O antigo copeiro do rei Artaxerxes sabia que não podia colocar qualquer pessoa para cuidar dos recursos da Casa de Deus, pessoas que geravam dúvidas, desconfianças ou suspeitas. Ele era suficientemente sábio para saber que a presença de servos fiéis, sob os quais não pairava qualquer sombra de dúvida, era não apenas desejável, mas necessária.

Atualmente, o uso inadequado dos recursos nas igrejas tradicionais, quando existe, reside majoritariamente na falta transparência, de critérios claros, justos, razoáveis e de fácil compreensão, seja nas decisões, seja na execução, bem como na falta de constância e previsibilidade de parâmetros, o que dá margem ao voluntarismo e ao autoritarismo. A autoridade vem de Deus, já o autoritarismo vem dos homens, e deve ser devidamente confrontado e corrigido.

O sumo sacerdote errou. Conselhos e pastores também erram. Não obstante, devemos observar se o erro é consequência direta de práticas administrativas e decisórias condenáveis, de uma liderança impositiva e manipuladora, ou se não passa de uma fatalidade, ocorrida apesar da justeza, do acerto e da coerência do processo com a mente de Cristo. A oração, utilizada como álibi para toda e qualquer medida, em si, não é garantia de um agir correto, devendo-se atentar para as ações, os frutos, a coerência dos critérios adotados com os valores do Reino; autoritarismo, imprudência e arbitrariedade são incoerentes com o evangelho, e por isso não devem ser aceitos com a desculpa de que houve oração. A Igreja omissa na Alemanha nazista, os holandeses calvinistas escravagistas do século XVII em Pernambuco, as igrejas segregacionistas no sul dos EUA (e na África do Sul), de onde boa parte do protestantismo brasileiro se origina; conquanto todos eles orassem, perpetraram erros graves ao longo de suas histórias, tanto por suas ações quanto omissões, erros estes que repercutem negativamente em suas sociedades até hoje.

A ausência de Neemias abriu espaço para o erro. Neemias fora de Jerusalém era a ausência de um espírito que tem temor, é fiel e zeloso da palavra, obedece aos mandamentos, e não tergiversa quando o evangelho é menosprezado; um espírito crítico e vigilante, cuja contínua transformação da mente pelo Espírito não permite que tenha o entendimento entorpecido, não mais distinguindo o certo do errado. Neemias não era sacerdote, profeta ou escriba, não tinha nenhum cargo oficial na estrutura religiosa da época, não obstante agiu com poder, motivado pela coerência com a Palavra. Nós somos (ou deveríamos ser) os Neemias de hoje, não podemos nos ausentar da administração das nossas igrejas, sob pena de permitirmos a existência ou o surgimento de hábitos e práticas que desagradam a Deus. Temos que estar sempre alertas para identificar atos que não se coadunam com o a Palavra, não importando se vêm de nós mesmos, do nosso irmão ou da liderança; para isso é necessário que tenhamos conhecimento do que se passa administrativamente na igreja, de maneira que possamos ser fiéis vigilantes dos recursos do reino. Somos todos sacerdotes, apesar desta verdade bíblica ser pouco enfatizada em tempos de alguns líderes pouco afeitos a contrariedades, por atrelaram a palavra liderança ao poder de exercer sua vontade e não à possibilidade de servir mais. Uma liderança que não está aberta a questionamentos e exortações baseados na Palavra mostra-se em descompasso com o evangelho, e deve ser levada a mudar de direção, pois suas velas estão contra o sopro do Espírito. Preferências arbitrárias na escolha dos fornecedores de equipamentos, materiais e serviços, critérios confusos e questionáveis no direcionamento dos recursos para obreiros e missionários, benefícios abusivos, etc. A figura dos pastores e presbíteros não pode ofuscar ou tirar a clareza e a autoridade primeira das Escrituras. Sacerdotes, falsos profetas, líderes corruptos e infiéis ao longo da bíblia deveriam nos servir de alerta para que a submissão inicial não se torne acrítica, confortável e preguiçosa, tornando-nos cúmplices do erro, cegando-nos para o mal.

Neemias por diversas e repetidas vezes se aborreceu (Ne 5:6), repreendeu (Ne 5:7), questionou (Ne 5:9), se indignou (Ne 13:8), contendeu (Ne 13:11), protestou (Ne 13:15), condenou e mandou corrigir os erros, descasos e pecados cometidos pelos sacerdotes, pelos magistrados, pelos nobres e pelo povo (Ne 13:11,17,25). Hoje é comum que as (raras) críticas feitas às lideranças, à luz da palavra, com zelo, e em obediência e coerência com o espírito profético e apostólico do evangelho, sejam, por vezes, desonesta e injustamente rotuladas de divisoras, facciosas e perturbadoras da “paz” e da “união” da igreja (paz e união estas que apenas válidas quando alicerçadas nas verdades bíblicas), tal como quis fazer o rei Acabe a Elias e rei Jeroboão a Amós, recebendo a devida resposta dos profetas. E sucedeu que, vendo Acabe a Elias, disse-lhe: És tu o perturbador de Israel? Então disse ele: Eu não tenho perturbado a Israel, mas tu e a casa de teu pai, porque deixastes os mandamentos do SENHOR (...) (1Rs 18:17-18). Apego à verdade, e não submissão ao erro e ao engano. Como nos mostram Neemias, os profetas, e os próprios reformadores, a indignação, o confronto e a contenda não devem ser estigmatizados, sendo a ausência deles caminho certo para a perdição. A boa contenda está embasada na Palavra, movida pelo Espírito e envolta pelo amor, já a má contenda nasce da inveja (Tg 3:14), da vaidade e futilidade (Tt 3:9), além da carnalidade (1Co 3:3). Rotulando a quem questiona, se interdita a troca e a confrontação de ideias e dificulta-se o hábito da reflexão e da iluminação do Espírito, da renovação da mente, e com ela, dos propósitos e práticas. A crítica e a má receptividade aos questionamentos realizados dentro do espírito bíblico, em geral se originam na insegurança, vaidade, medo, autoritarismo, soberba e apego ao poder; comumente recobrem decisões, práticas e hábitos na gestão da igreja que, se expostos à luz, seriam, no mínimo, questionados. Submissão não é sinônimo de ausência de questionamento. Perguntas pertinentes merecem resposta.

Epílogo

Soube do mal que Eliasibe fez para beneficiar a Tobias...(Ne 13:7) - Alguns sabiam , discerniam , mas  não se opuseram, por ceder ao medo, por temer retaliações do sumo sacerdote e dos seus. Outros podem ter contado o fato a Neemias sem sequer perceber o mal presente na atitude de Eliasibe. Os dois casos são igualmente graves, o medo que imobiliza e inutiliza o discernimento, e a ingenuidade e falta de discernimento que deságuam no apoio a ações e a pessoas cujas reais motivações não apontam para Deus, apesar de usualmente serem as que mais se utilizam do seu nome, conforme nos alerta o Senhor Jesus (Mt 7:22).

Soube do mal que Eliasibe fez para beneficiar a Tobias – A atitude de Eliasibe em tomar espaço e recursos da casa de Deus foi essencialmente má, conforme denunciada por Neemias. A simples motivação de beneficiar ou ajudar alguém não chancela qualquer ato como correto diante de Deus. O uso de tal justificativa para se lançar mão inadvertida e arbitrariamente dos recursos da casa de Deus é frágil e não encontra sustentação no evangelho; o fato de alguma medida ser aprovada por qualquer maioria, não transforma um ato em essencialmente correto, pois ainda não inventaram conselhos de homens que subvertam a palavra da verdade, porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração (Hb 4:12).

Artur Leonardo Gueiros Barbosa

domingo, 7 de outubro de 2012

Base sólida para a reconstrução



No livro de Neemias, em seu capítulo quinto, encontramos um episódio essencial para o processo de reconstrução da cidade de Jerusalém, tarefa a qual o filho de Hacalias tinha se proposto realizar diante de Deus. Trata-se do momento em que os homens e mulheres do povo clamaram contra seus irmãos pela situação em que se encontravam: pediam trigo para não morrerem de fome, eles e seus filhos; tiveram suas terras, suas plantações e suas casas penhoradas e na mão de credores; precisavam tomar empréstimos até para pagar os tributos do rei; por fim, seus próprios filhos e filhas tinham sido sujeitos à escravidão a outros judeus, e não havia nada que eles pudessem fazer, eles simplesmente não tinham como se defender (Ne 5:1-5). Estabeleceu-se uma situação em que privilegiados aproveitavam-se da condição frágil e desesperadora dos outros para explorá-los sem limites; estado agravado pelo fato dos credores serem irmãos dos devedores, todos judeus.

É comum, no nosso dia-a-dia, ouvirmos expressões como “tempo é dinheiro” e “amigos, amigos, negócios à parte”. Devido à contínua repetição, muitos cristãos acabam, sem perceber, moldando-se ao conteúdo destas máximas que estabelecem o ganhar dinheiro como parâmetro “ético” no lugar do evangelho, orientando suas vidas e tomando suas decisões baseados na lógica insensível, fria e desumana do “custo de oportunidade”. Os conceitos cristãos de misericórdia, justiça, serviço e mordomia não mais definem e apontam o uso dos recursos dados por Deus. Do mesmo modo que nos tempos de Neemias, há hoje irmãos que ao emprestar recursos a pessoas em dificuldades, em situação de privação e angústia, muitas vezes irmãos na fé, quando não parentes próximos, o fazem a juros, incorrendo no mesmo comportamento dos credores judeus, alvos da indignação do povo. Ignorar o sofrimento de parentes e irmãos estando em situação de ajudá-los é um ato infeliz, condenado firmemente nas palavras do apóstolo Paulo a Timóteo: se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé, e é pior do que o infiel (1Tm 5:8).  

Crentes que são empregadores, empresários, e não garantem nem respeitam os direitos trabalhistas dos seus empregados, como a carteira assinada; que não lhes pagam em dia e condignamente o salário devido (Mt 10:10) mesmo tendo a possibilidade de fazê-lo (Tiago 5:4,5); que os constrangem a trabalhos e serviços extras sem a devida compensação, aproveitando-se da fragilidade e impotência alheia (... e nada podemos fazer... Ne 5:5), agem como os usurários dos tempos de Neemias. Tanto no passado quanto nos dias de hoje, tais pessoas se utilizam de argumentos cínicos e distantes do temor do Senhor para tentarem justificar a exploração e o abuso que cometem com aqueles que se encontram desprotegidos e em suas mãos: dizem que “escolheram” ajudar, quando podiam se negar a fazê-lo; o fato é que se se decide ajudar alguém, deve-se fazê-lo sem se buscar tirar qualquer vantagem disso. Ainda mais grave se torna este tipo de comportamento patronal quando os empregados, desrespeitados em seus direitos e dignidade, são irmãos em Cristo Jesus. 
Tal situação escandaliza duplamente o evangelho.

Neemias, ao tomar conhecimento da situação do povo, muito se aborreceu e se indignou, agindo energicamente para corrigi-la por identificar ali um claro desrespeito à lei de Deus - O que vocês estão fazendo não está certo. Vocês devem andar no temor do Senhor para evitar a zombaria dos outros povos... (Ne 5:9). Ele identificou o erro e agiu para extirpá-lo de imediato. Tratou aqueles homens pelo que eles realmente eram: Usurários! Exigindo deles a devolução de absolutamente tudo o que haviam tomado dos seus irmãos como consequência das penhoras, incluindo os juros cobrados. Para o empregador que nega os direitos básicos dos seus empregados, compensar a falta de testemunho com religiosidade - músicas, reuniões e cultos no local de trabalho, “fartas” contribuições e participação nas atividades eclesiásticas – pode até iludir a maioria dos homens e a si mesmo, mas não engana os que, à luz do Evangelho, se atém mais aos atos que às palavras, e, mais importante, não engana a Deus (Tg 1:22).

Neemias e seus chegados abriram mão do dinheiro e do trigo que tinham emprestado, pois levaram em conta o estado de dificuldade do povo. Posteriormente, quando atuando como governador na terra de Judá,  o servo de Deus se absteve das práticas opressoras e impiedosas dos seus antecessores e declarou o porquê: eu assim não fiz, por causa do temor de Deus. Ne 5:15. O cristão não se aproveita da fragilidade do outro para lucrar. O cristão não se esconde por trás de bordões cínicos, criados por aqueles que servem à riqueza, como desculpa para ser insensível e indiferente à situação do próximo, mas anda segundo a palavra da verdade, agindo retamente. O cristão abre mão de um direito seu, se a perpetração desse direito vier a privar outros de recursos que são essenciais à sua dignidade.

O servo do Senhor que liderava a reconstrução de Jerusalém convocou um grande ajuntamento e confrontou um pecado real que afetava a vida de todo o povo remanescente na terra de Judá. Tal atitude nos fornece dois pontos de reflexão: O primeiro é que não vale a pena continuarmos a vida diária na comunidade cristã andando no automático, com muito ativismo e pouca ou nenhuma reflexão e autocrítica, sem tratarmos os pecados que vão surgindo no caminho. Para Neemias, a correção de rumo era tão importante quanto à reconstrução em si, caso contrário, estariam edificando um castelo de areia, com bases que não apontavam para o reino de Deus. O segundo ponto é que cabe a nós e, sobretudo, às nossas lideranças, na forma dos presbíteros docentes e regentes, refletirmos se as práticas pecaminosas denunciadas pelo povo de outrora e combatidas por Neemias, não estão presentes também hoje entre nós, e se não merecem ser tratadas com o mesmo zelo e diligência com que o são outros pecados, notadamente os relativos à sensualidade.