sábado, 25 de junho de 2011

Prosperidade: substantivo coletivo


O que pensamos quando ouvimos a palavra prosperidade? Ela pode ser tida como um meio para a felicidade que, no conceito do mundo, seria a possibilidade de adquirir e satisfazer vontades e desejos pessoais. Contudo, como tal conceito, baseado na saciedade de desejos e vontades próprias poderia coexistir com o evangelho do Senhor Jesus? Que abriu mão de todas as suas vontades para que a vontade do seu Pai fosse realizada na vida dele? (Jo 4:34, 5:30) Cristo exige a mesma atitude dos seus discípulos (Mc 3:35). 

O caminho apresentado para uma vida próspera mostra-se outro, revelado ao longo das Escrituras, como no salmo primeiro ou nas bem-aventuranças. Nestas, percebemos que a felicidade está em sermos aquilo para o qual fomos criados. Imagem e semelhança do Criador. Quanto mais avançamos nesta vereda, mais felizes somos, pois mais perto ficamos da nossa razão de existir. Independentemente das aflições da vida, temos ânimo (Jo 16:33). Neste aspecto, o cristão próspero é aquele que age como o Mestre, o qual, com sua vida (Mt 8:20, Lc 22:35) e suas palavras (Lc 12:15, 16-21, 33), nos mostra que a prosperidade material em si e o uso que o homem do mundo faz dela não são alvo nem modelo para o povo de Deus. Se insistimos e criamos desculpas para priorizar esse alvo em nossas vidas, no lugar da busca pelo reino de Deus e sua justiça, deveríamos refletir sobre nossas escolhas e o caminho que estamos trilhando, pois a Bíblia nos diz que simplicidade é liberdade, e duplicidade é servidão (Lc 16:13), ou, como bem disse Kierkegaard: “Pureza de coração é desejar uma só coisa”. Diante disso, permitir que a busca e vivência do reino seja dividida pelo desejo de prosperidade material mostra-se uma atitude pouco sábia.

Mas se o mundo idolatra a prosperidade e a utiliza de forma incorreta, como deve ser entre nós, comunidade através da qual Deus quer se revelar ao mundo? Analisemos a afirmação feita pela rainha de Sabá ao visitar Salomão e o reino de Israel, conhecendo mais do Deus daquele povo e das grandes bênçãos materiais que Ele lhes havia concedido: “Por causa do amor eterno do Senhor para com Israel, ele te fez rei, para manter a justiça e a retidão(1 Reis 10.9). A rainha nos revela o propósito do Senhor para a prosperidade material de Israel. Todas as manifestações de prosperidade - sejam elas riqueza, poder ou influência - só têm sentido se utilizadas em benefício dos necessitados, dos pobres, dos injustiçados e dos mais frágeis da sociedade e da comunidade. Vejamos a instrução de Paulo: “Ordene aos que são ricos no presente mundo que não sejam arrogantes, nem ponham sua esperança na incerteza da riqueza, mas em Deus (...) Ordene-lhes que pratiquem o bem, sejam ricos em boas obras, generosos e prontos para repartir” (1 Tm 6:17-19). É esta ação sincera, no temor do Senhor, que livra os prósperos materialmente da escravidão ao dinheiro e do mau uso da prosperidade, do vazio que nasce quando você deixa de converter suas bênçãos em bênçãos para os outros.

Ainda tendo como exemplo o reinado de Salomão, ele, assim como nós, poderia usar seu poder, riqueza e sabedoria para fazer alguma coisa em relação ao clamor do oprimido ou fingir que não ouviu, fingir que a dor do outro nada tem a ver com ele e com os meios que Deus lhe deu para ajudar o aflito. No meio da descrição bíblica sobre o governo de Salomão, há um versículo que explicita a má escolha feita pelo rei, em relação ao uso de poder e riqueza da Israel de seu tempo: “O rei Salomão impôs trabalhos forçados para que se construísse o templo do SENHOR, seu próprio palácio, o aterro, o muro de Jerusalém, bem como Hazor, Megido e Gezer. (1 Reis 9:15) i - O palácio indica o foco no bem-estar próprio (luxo, conforto sem limites, ostentação), ii - o uso de escravos pelo povo que foi libertado maravilhosamente da escravidão, mostra indiferença e insensibilidade ao clamor do oprimido, posição em que ele esteve um dia, no Egito, iii - a construção de bases militares (Hazor e Megido) aponta para a preocupação em preservar, manter e proteger os recursos que deveriam ser usados para abençoar, e não, serem acumulados indiscriminadamente. Três desvios claros em relação ao plano de Deus para a riqueza e o poder de Israel, três desvios que se repetem todos os dias em nossas comunidades. A história do reinado de Salomão mostra que as ações do rei iam de encontro às ordens que o Senhor tinha dado ao povo através de Moisés no passado: “Esse rei, porém, não deverá adquirir muitos cavalos, nem fazer o povo voltar ao Egito para conseguir mais cavalos, pois o SENHOR lhes disse: ‘Jamais voltem por esse caminho’. (...) Também não deverá acumular muita prata e muito ouro.” (Dt 17:16-17)

Será que os nossos hábitos, padrões e prioridades de consumo mostram aos órfãos, viúvas e estrangeiros do nosso tempo que a prosperidade dada por Deus está sendo usada como Ele planejou? Para benção de muitos e glória sua? Ou estaria sendo utilizada de forma egoísta, para satisfazer as vontades e os desejos de uns poucos? Segundo Martinho Lutero: “Se nossos bens não estão disponíveis à comunidade, são bens roubados.” Ainda Ariovaldo Ramos afirma: “A divindade é quem sustenta a todos, porém, não a cada um, de modo que o pão (nosso) é de todos, e todos são responsáveis para que cada um tenha acesso ao que é para todos. Qualquer movimento diferente é apropriação indébita.”.

Que a nossa prosperidade seja a de todos, para que sejamos todos um.

Pais e Filhos


Quando eu era filho em companhia de meu pai, então ele me ensinava e me dizia: Retenha o teu coração as minhas palavras; guarda os meus mandamentos e vive. Pv. 4: 3,4.

Filhos rebeldes, desrespeitosos, afastados de Deus, sendo seduzidos pelo mundo é algo que sempre existiu e que nunca deixou de ser alvo da angústia paterna e materna. No entanto, faz-se necessário diferenciar quando os problemas com os filhos surgem em lares cuja educação procura refletir a Cristo e a palavra de Deus, de quando os problemas são fruto de incoerência, de mau exemplo, de uma disciplina descuidada, frouxa, que despreza a Sabedoria (Sl. 19:7). No primeiro caso, o problema surge apesar da criação, já no segundo, por causa dela. 

Infelizmente, tem se tornado uma cena comum hoje em dia testemunhar crianças - de todas as idades - responderem aos pais, aos avós, ofendendo-os,  sem serem repreendidos ou disciplinados. Tem sido usual até mesmo a inversão de papéis, com os filhos mandando nos pais, determinando as suas vontades, quando e como as querem ver atendidas. É triste ver que muitos pais, desprezando diariamente o fiel testemunho cristão para com seus filhos - omitindo a disciplina e a repreensão (Pv. 3:12; 13:24)-, procuram ensinar-lhes cacoetes religiosos, mandamentos de homens (Mc. 7:13; Is. 29:13), com entusiasmo inverso àquele que usam para dar aos seus filhos um exemplo de relacionamento profundo, verdadeiro e sincero com o Senhor. 

Um pequeno exemplo que serve para ilustrar o equívoco cometido por muitos pais é o uso de nome de Deus em vão. Algo que seria impensável dentro da comunidade cristã há quinze, vinte anos atrás, hoje se tornou corriqueiro entre os crentes de todas as idades, homens, mulheres e sacerdotes (os institucionais e todos nós, como parte do corpo de Cristo). É como se o mandamento tivesse sido apagado da Palavra, como se Jeová, o Redentor, o Santo de Israel (Is. 48:17) não precisasse mais ser alvo da nossa reverência e temor. Pais que dão exemplo em casa e na rua têm muito mais condições de verem suas instruções obedecidas pelos filhos do que aqueles que são incoerentes.

Saindo da infância e analisando da pré-adolescência à vida adulta, percebe-se que o exemplo e a coerência paterna (pai e mãe), em existindo, abrem as portas para outras ações que ajudam bastante no amadurecimento de um lar cristão saudável. Duas dessas ações são a abertura dos filhos para com os pais e a possibilidade de o filho ver-se desafiado em sua vida a realizar um propósito eterno. 

Aqui, o exemplo do rei Lemuel - explicitado no último capítulo de Provérbios - é emblemático. Nele, vemos que os conselhos de sua mãe não apenas alertam o rei sobre situações e hábitos que podem levá-lo a esquecer-se do querer de Deus, mais principalmente o impulsionam à ação, o impedem de seguir no imobilismo e na falta de sentido, os quais são porta aberta para as tentações, as quedas e o conseqüente distanciamento de Deus. 

Abre a boca a favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham desamparados. Abre a boca, julga retamente e faze justiça aos pobres e aos necessitados. Provérbios 31:8,9

O exemplo de Lemuel e sua mãe nos mostra a importância de um viver cristão que vai além do pietismo, que atenta para a Palavra sem seletividade, que se enxerga como agente transformador do mundo, para a Glória de Deus. A tarefa de fazer o mundo refletir os valores do Reino está sobre nós, Corpo de Cristo e a percepção desta enorme responsabilidade, sobretudo diante de uma realidade de injustiça, miséria e opressão como a que temos à nossa volta, faz com que nossos pensamentos, palavras e ações estejam voltados para cumprir a vontade de Deus na terra em todo o tempo. 

Assim, focados no que realmente importa, pondo-nos como obstáculo a todo o mal (Pv.8:13), e sem nos escondermos do nosso semelhante (Is. 58:7; Pv. 3:27), percebemos que pensamentos sombrios, tentações, fraquezas e desilusões empalidecem, não deixam de existir, mas perdem a força e a importância de outrora. Diante de uma vida de oração, amor pela palavra (Sl. 119:16-19), e ação que transforma a si próprio, ao próximo, e à realidade em seu entorno, as possibilidades de se deixar enlaçar decrescem na mesma proporção em que o relacionamento com o Pai amadurece.  Filhos que antes seriam tentados a tomar a forma deste século passam a se perceber como revolucionários de Deus, atuantes incansáveis na vivência e construção do seu Reino. O propósito transformador dá o tom de uma vida plena, em Cristo.  

O exemplo dá mais poder à palavra, a sabedoria (apesar de exigir dos pais paciência e fé) é mais eficaz que o legalismo, o cumprimento do grande mandamento inspira, impulsiona e renova, enquanto que a alienação traz amargura, desnorteia, desanima e enfraquece. 

Esta reflexão foi escrita por alguém que foi sempre disciplinado com amor, por amor e no amor, e que percebe os benefícios trazidos por essa disciplina fruto do temor dos pais pelo Senhor; alguém que aprendeu com os próprios pais a não colocar nada antes de Deus, nem mesmo os filhos. E que, por isso mesmo, pode hoje alegrar-se com a bendita herança espiritual recebida.

Fraternalmente em Cristo,

Artur Leonardo Gueiros Barbosa

Cristianismo e Política

O Evangelho, o senhorio de Cristo, se espraia por todos os aspectos de nossas vidas. Tudo pode e deve ser utilizado pelo cristão como instrumento de graça, como materialização do amor: um sorriso, um email, um olhar, um blog, um livro, um tweet, um abraço, um olá e, da mesma forma, a política. Ela nada mais é do que a ferramenta na qual as relações de poder se estabelecem; não se restringe a voto, candidatos, congresso etc, mas abrange o nosso dia-a-dia, nossas decisões, nossos posicionamentos.


O partido de Cristo é o Reino, seus valores são o parâmetro, e o objetivo final é a glória de Deus. Num estado democrático, a política é o instrumento pelo qual se dão as maiores e mais abrangentes transformações para o país. Toda e qualquer demanda ou pressão exercida pelos diversos atores sociais tem, necessariamente, que desembocar na política institucional para que tome forma legal atingindo, assim, todos os cidadãos. Como servos do Altíssimo, deveríamos buscar desenvolver um maior interesse pela política, explorar seu potencial como instrumento de transformação da realidade, refletindo os valores de Deus na sociedade.


A política deve ser cuidada pelos cristãos, aperfeiçoada, bem utilizada, e não, desdenhada. O fato de candidatos e partidos caírem em erro, não deveria nos surpreender; não temos nenhuma ilusão quanto ao estado de total depravação do homem e à luta contínua contra o pecado que tenazmente nos assedia. Pelo contrário, nossa relação com Deus - ao expor nossas fraquezas - nos impulsiona a aperfeiçoar a política, de maneira a dificultar que a ganância, a vaidade e o egoísmo humanos tenham espaço nas estruturas econômicas e sociais, gerando fome, miséria e dor. Nosso relacionamento com o Pai deve nos mover para políticas públicas que corrijam a vil miséria que insulta os céus, caso contrário, as pedras continuarão clamando, e o Senhor continuará usando ímpios para realizar a tarefa que nos foi endereçada. Multipliquemos, pois, o talento que nos foi confiado. Mas, chegando também o que recebera um talento, disse: Senhor, eu conhecia-te, que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste; E, atemorizado, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu. Respondendo, porém, o seu senhor, disse-lhe: Mau e negligente servo; sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei?Devias então ter dado o meu dinheiro aos banqueiros e, quando eu viesse, receberia o meu com os juros. Tirai-lhe pois o talento, e dai-o ao que tem os dez talentos. Porque a qualquer que tiver será dado, e terá em abundância; mas ao que não tiver até o que tem ser-lhe-á tirado. Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.


Preocupamos-nos mais com as conseqüências: aborto e homossexualismo, do que com as causas - objetização da mulher na mídia, abuso sexual de crianças, tráfico de seres humanos, qualidade dos programas de TV, desigualdade e opressão no campo e na cidade, exploração no trabalho, impostos injustos, juros bancários extorsivos, destruição da natureza. Enquanto Corpo de Cristo, temos que ser a materialização do amor de Deus na sociedade que nos cerca (na qual deveríamos estar inseridos), mostrando através das boas obras - “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” -, que Deus se importa e que tem um plano melhor para o mundo. O Eterno exige que identifiquemos o mal (Informa-se o justo da causa dos pobres, mas o perverso de nada disso quer saber. Pv. 29:7) e o combatamos, onde quer que se manifeste, pois praticar a justiça é alegria para o justo, mas espanto, para os que praticam a iniquidade. Pv 21:15


Aborrecer o mal e colocar-se como prumo na construção de uma sociedade mais justa (Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão, para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito aos aflitos... Is 10:1,2.) e mais amorosa (O lobo habitará com o cordeiro,...; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará. Is 11:6) é um papel do qual não podemos nos furtar, e para o qual precisamos cultivar senso crítico e discernimento, fundamentais para a compreensão e a prática do Evangelho. A falta deles costuma gerar uma fé supersticiosa, cheia de medo, de dogmas e de autoritarismo, distinta da fé dinâmica vivida e pregada pelos reformadores (Ecclesia reformata semper reformanda).

Quando a igreja não tem discernimento histórico do seu papel, do que se passa no mundo, das correlações de força, das relações de causa e conseqüência, quando falta profecia (Pv 29:18), ela se afasta do pleno testemunho de Cristo. A Palavra e a história mostram que nem sempre a presença da igreja indica a presença de Jesus.  Os tristes exemplos das igrejas segregacionistas no sul dos EUA e na África do Sul, bem como as igrejas que apoiaram e deram suporte aos golpes militares na América do sul revelam isto. Se temos hoje dificuldade em entender nosso papel e compromisso diante da injusta realidade brasileira, a resposta se encontra em parte na nossa própria história eclesial, que sepultou, a duros golpes, o pensamento crítico e a reflexão, fazendo com que os erros do passado se tornassem os dogmas que engessam a compreensão e transformação do presente. Cabe-nos trazê-los (crítica e reflexão) à vida novamente, para que o Senhor nos guie pelas veredas da justiça, por amor do seu nome. Pois em Cristo, um outro mundo é possível.