quarta-feira, 3 de julho de 2013

CIRO, ESDRAS E A LIÇÃO NEGLIGENCIADA



É comum e, por vezes, até curioso, encontrarmos na Bíblia o detalhado e extensivo registro de genealogias, a preocupação em registrar o agir de Deus na história em pequenas, simples e discretas ações de pessoas comuns, mas usadas pelo Senhor para sua glória. O registro nas crônicas, a citação e ênfase em atos aparentemente menores, procedimentais e burocráticos, como arquivamentos, contagens, pesagens e rechecagens são encontrados com abundância em toda a palavra de Deus. Para além da informação em si, qual o sentido de se explicitar na Palavra tais tarefas e procedimentos, tão corriqueiros e ordinários? Atentemos para os trechos da Palavra a seguir:

Também o rei Ciro tirou os utensílios da casa do SENHOR, que Nabucodonosor tinha trazido de Jerusalém, e que tinha posto na casa de seus deuses. Estes tirou Ciro, rei da Pérsia, pela mão de Mitredate, o tesoureiro, que os entregou contados a Sesbazar, príncipe de Judá. E este é o número deles: trinta travessas de ouro, mil travessas de prata, (...), e mil outros utensílios.(...); todos estes levou Sesbazar, quando os do cativeiro subiram de babilônia para Jerusalém. Esdras 1:7-11

Também estes subiram de Tel-Melá (...) e Imer; porém não puderam provar que as suas famílias e a sua linhagem eram de Israel.(...) E dos filhos dos sacerdotes: os filhos de Habaías, de Coz, de Barzilai, (...). Estes procuraram o seu registro entre os que estavam arrolados nas genealogias, mas não se acharam nelas; assim, por imundos, foram excluídos do sacerdócio. E o governador lhes disse que não comessem das coisas consagradas, até que houvesse sacerdote com Urim e com Tumim.Esdras 2:59-63

Agora, pois, se parece bem ao rei, busque-se na casa dos tesouros do rei, (...), se é verdade que se deu uma ordem pelo rei Ciro para reedificar esta casa de Deus em Jerusalém; e sobre isto nos faça saber a vontade do rei. Então o rei Dario deu ordem, e buscaram nos arquivos, onde se guardavam os tesouros em babilônia. E em Acmeta, no palácio, que está na província de Média, se achou um rolo, e nele estava escrito um memorial que dizia assim: (...). Esdras 5:17 e 6:1-2 

Então separei doze dos chefes dos sacerdotes: Serebias, Hasabias, e com eles dez dos seus irmãos.
E pesei-lhes a prata, o ouro e os vasos; que eram a oferta para a casa de nosso Deus,(...). E pesei em suas mãos seiscentos e cinqüenta talentos de prata, e em vasos de prata cem talentos,(...). E disse-lhes: Vós sois santos ao SENHOR, e são santos estes utensílios, como também esta prata e este ouro, oferta voluntária, oferecida ao SENHOR Deus de vossos pais. Vigiai, pois, e guardai-os até que os peseis na presença dos chefes dos sacerdotes e dos levitas, e dos chefes dos pais de Israel, em Jerusalém, nas câmaras da casa do SENHOR. Então os sacerdotes e os levitas receberam o peso da prata, do ouro e dos utensílios, para os trazerem a Jerusalém, à casa de nosso Deus. E partimos do rio Aava, no dia doze do primeiro mês, para irmos a Jerusalém; (...). E chegamos a Jerusalém, e repousamos ali três dias. E no quarto dia se pesou a prata, o ouro e os utensílios, na casa do nosso Deus, por mão de Meremote, filho do sacerdote Urias; e com ele Eleazar, filho de Finéias, e com eles Jozabade, filho de Jesuá, e Noadias, filho de Binui, levitas. Tudo foi contado e pesado; e todo o peso foi registrado na mesma ocasião.
 Esdras 8:24-34

Os exemplos acima nos ajudam a compreender o porquê do registro de tarefas caracterizadas como administrativas. A chave está, em parte, na afirmação de Paulo destacando que a motivação última de tudo o que fazemos deve ser a glória do Pai (1 Co 10:31). O Senhor nos mostra através do Verbo que há um jeito certo de se viver, um modo divino de agir em cada situação, de modo que sua glória seja manifesta. Ao registrar repetidamente em sua palavra pequenos atos administrativos, o Justo demonstra não apenas que Ele é glorificado nestes gestos, mas também que estas ações têm uma maneira correta de serem realizadas, e que a não atenção a isso é descaso com o Deus da glória, que registra desde o gênesis sua atenção com a ordem e justeza das coisas, atributos seus.

A palavra de Deus de um modo geral, e o livro de Esdras em particular, apresentam, como visto acima, diversos fatos e práticas que demonstram a genuína preocupação dos servos de outrora com o correto, preciso e completo registro histórico da comunidade, dos seus membros e das suas decisões e atos; com a transparência das informações e das ações, com a checagem, verificação e atestação em tudo o que se faz, e com a disposição sábia, humilde e amorosa (à semelhança de Cristo) de incluir os membros da comunidade nas decisões, consultando-os, sem tomar para si a prerrogativa do poder, exercendo-o como o mundo o exerce; lição devidamente aprendida pelos Apóstolos (At 15:6-22), mas comumente esquecida pelos cristãos ao longo da história, pelos que insistem em enxergar a vida e o exercício do poder (inclusive o eclesiástico) pelo prisma do mundo. A maneira como se administra a igreja deve refletir o reino, e as Escrituras são claras ao demonstrar que na comunidade dos santos - seja o Israel pós-exílio babilônico de Esdras, seja na igreja primitiva, ou nas comunidades cristãs atuais -, organização, registro, clareza, transparência, precisão, imparcialidade, revisão, humildade, e inclusão, ou empoderamento, são práticas e comportamentos imprescindíveis a um agir coerente com a fé que professamos.

Ocasiões como assembleias, e atos cotidianos como tarefas e decisões de ordem administrativa, apesar de usualmente desprezados e tidos pejorativamente por alguns como “burocráticos”, como um “mal necessário”, são parte de nossa adoração a Deus; são atos em que o Criador pode, ou não, ser glorificado, como de resto tudo o que fazemos ou deixamos de fazer. Deus não é obedecido, adorado e glorificado apenas quando uma igreja envia missionários e entoa louvores e cânticos espirituais, ou mais raramente quando aborrece o mal e a injustiça (pontual ou estrutural) ou se compadece dos pobres e desalentados (Zc 7:9,10), mas em cada ação diária, na obediência, no zelo, no amor e na coerência em todas as áreas de nossas vidas e de nossa comunidade. Negligenciar práticas que glorificam a Deus nos atos administrativos da igreja e querer obedecê-lo apenas em determinadas áreas soa incoerente e temeroso, revela uma concepção limitada e incongruente do evangelho, uma tentativa de coexistência de pensamentos contrários, o famoso duplipensar orwelliano, que gera um porvir incerto, frágil e arenoso.

Neste ponto, diante da imensa maioria das igrejas que lutam todos os meses para pagar suas contas - que sabem o que é esperar um milagre para honrar seus compromissos mais básicos, como água, luz e o humilde salário do seu único pastor -, a coerência, o cuidado e a responsabilidade das igrejas ricas em todos os seus atos devem ser ainda maiores. Oxalá não sejamos encontrados culpados, mas possamos sim trilhar sempre o caminho da simplicidade, da humildade e da correção.

Sugestões para a IPG

1- Utilização de listagem completa dos membros efetivos e comungantes nas assembleias

O atual método de atestação da presença dos membros nas assembleias, em que cada um assina seu nome num livro de atas, deveria ser substituído pelo uso da listagem completa dos membros efetivos e comungantes da igreja, os quais deveriam assinar, cada qual, ao lado do seu nome na lista. Deste modo, não apenas se facilitaria a identificação posterior dos presentes para registro histórico, como se dificultaria o registro equivocado do não-membro ou de membro não comungante, seja por engano, desinformação ou má-fé.

2- Adoção de cédulas de votação com possibilidade de registro do voto nulo

Por último, no tocante a eleições para pastor, em que haja apenas um candidato, o bom senso e o espírito bíblico nos compelem a evitarmos cédulas que não deem ao membro a opção de registrar o voto nulo num espaço próprio. É constrangedor, nos casos de candidato único, haver apenas o espaço com o nome do candidato para marcar, sendo os membros obrigados a deixarem a cédula intocada em caso de discordância. O fato de se oferecer unicamente o espaço com o nome do candidato pode induzir alguns a marcá-lo inadvertidamente. A possibilidade de se marcar nulo num espaço específico fortalece o processo, na medida em que este se torna mais confiável e neutro.


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

TOBIAS E O SUMO SACERDOTE


São constantes nas conversas e sermões em nossas comunidades as referências às igrejas neopentecostais, não apenas pela interpretação que fazem da Bíblia, mas também pelo uso e direcionamento dado por elas aos recursos obtidos através das ofertas dos seus fiéis. Não nos deixemos, contudo, cair na tentação fácil de olhar apenas para as práticas comuns a denominações adeptas da teologia da prosperidade, mas foquemos, antes (Mt 7:3-5), nossas igrejas históricas tradicionais, procurando nos concentrar no segundo aspecto, o do uso inadequado dos recursos devolvidos a Deus em forma de dízimos e ofertas. Não vamos nos ater aos casos clássicos de uso da fé para ganhar dinheiro, mas àquelas ações por vezes pequenas, discretas e habituais, que agridem o evangelho, não sendo percebidas pela maioria das pessoas, mas que saltam aos olhos e trazem indignação àqueles cujo mover do Espírito se traduz em discernimento, temor e apego fiel à Palavra.

A Palavra de Deus faz um relato que, se trazido aos nossos dias, pode gerar reflexões importantes e, principalmente, arrependimento e correção de práticas erradas para com os recursos do Reino de Deus e da sua Igreja. Ela conta que em determinado momento da experiência do povo de Israel após a volta do exílio babilônico, Eliasibe, o sumo sacerdote judeu, ao se tornar parente de um homem chamado Tobias, passou a beneficiá-lo, tomando um espaço do pátio da Casa de Deus e transformando-o numa grande câmara mobiliada para seu novo aparentado (Ne 13:4-14). Tal fato se deu durante a ausência de Neemias de Jerusalém, uma vez que o servo de Deus se encontrava na Babilônia, em audiência com o rei Artaxerxes. Ao voltar a Jerusalém Neemias tomou conhecimento do que havia acontecido, segundo a descrição bíblica que segue: Então, soube do mal que Eliasibe fizera para beneficiar a Tobias, fazendo-lhe uma câmara nos pátios da Casa de Deus. Isso muito me indignou a tal ponto, que atirei todos os móveis da casa de Tobias fora da Câmara.  (Ne 13:7,8)

O sacerdote havia beneficiado alguém próximo (parentes, amigos ou apoiadores) com uma parte do templo e com recursos deste. Ao mesmo tempo, como é comum nesses casos, reteve e desviou os recursos, os quais deveriam se destinar à execução dos rituais litúrgicos, e à manutenção dos levitas e dos sacerdotes - o ato errado de privilégio tem como outra face a injustiça e o desrespeito para com outras pessoas. Tais ações condenáveis tinham consequências práticas e públicas, uma vez que eram visíveis e prejudicavam diretamente a muitos (Ne 13:10). Entretanto, apesar de perceptíveis por um grande número de pessoas, as medidas infames tomadas pelo sumo sacerdote não foram recriminadas, ou se o foram, não tiveram força suficiente para impedir sua consecução. Aparentemente o mal estava feito e era inexorável. Mas havia Neemias, e com ele o discernimento, a coragem e a intrepidez daqueles cujo único compromisso é com a Palavra de Deus, e não com os interesses e conveniências dos homens; ele corrigiu o rumo daquela situação de maneira enérgica e definitiva, jogando os móveis para fora, purificando as câmaras e restituindo os lugares dos levitas, bem como tudo o que lhes era destinado. Nos dias de hoje, o ponto levantado por Neemias foi adotado pela Ciência Contábil como um princípio norteador: o Princípio da Entidade, que enfatiza a necessidade de separação do patrimônio dos sócios ou proprietários do patrimônio da entidade, seja ela de que origem for. Por trás de tal princípio está o ideal de transparência, clareza e fidedignidade no uso dos recursos e nas informações prestadas a todos os interessados.

Neemias, após arrancar os móveis da câmara, contendeu com os oficiais e magistrados, arguindo-os: Por que se desamparou a Casa de Deus? (Ne 13:11) O questionamento mostra que aqueles homens, pela função que exerciam, deveriam ter agido preventiva ou reativamente para impedir o mal, e não o fizeram; deveriam ter agido com firmeza ao detectarem a arbitrariedade, a dissimulação e o autoritarismo do sacerdote, características que passam longe do evangelho de Cristo. Após inquirir aquele conselho, e para a vergonha dos que o compunham, o servo do Senhor tratou de reestabelecer ele mesmo os levitas aos seus antigos postos. De modo a concertar o erro causado pela má-fé de Eliasibe e pela inação dos oficiais, Neemias colocou quatro pessoas irrepreensíveis e dignas de confiança (entre sacerdotes, escribas e levitas) para cuidarem dos depósitos e da distribuição de suprimentos aos seus colegas. O antigo copeiro do rei Artaxerxes sabia que não podia colocar qualquer pessoa para cuidar dos recursos da Casa de Deus, pessoas que geravam dúvidas, desconfianças ou suspeitas. Ele era suficientemente sábio para saber que a presença de servos fiéis, sob os quais não pairava qualquer sombra de dúvida, era não apenas desejável, mas necessária.

Atualmente, o uso inadequado dos recursos nas igrejas tradicionais, quando existe, reside majoritariamente na falta transparência, de critérios claros, justos, razoáveis e de fácil compreensão, seja nas decisões, seja na execução, bem como na falta de constância e previsibilidade de parâmetros, o que dá margem ao voluntarismo e ao autoritarismo. A autoridade vem de Deus, já o autoritarismo vem dos homens, e deve ser devidamente confrontado e corrigido.

O sumo sacerdote errou. Conselhos e pastores também erram. Não obstante, devemos observar se o erro é consequência direta de práticas administrativas e decisórias condenáveis, de uma liderança impositiva e manipuladora, ou se não passa de uma fatalidade, ocorrida apesar da justeza, do acerto e da coerência do processo com a mente de Cristo. A oração, utilizada como álibi para toda e qualquer medida, em si, não é garantia de um agir correto, devendo-se atentar para as ações, os frutos, a coerência dos critérios adotados com os valores do Reino; autoritarismo, imprudência e arbitrariedade são incoerentes com o evangelho, e por isso não devem ser aceitos com a desculpa de que houve oração. A Igreja omissa na Alemanha nazista, os holandeses calvinistas escravagistas do século XVII em Pernambuco, as igrejas segregacionistas no sul dos EUA (e na África do Sul), de onde boa parte do protestantismo brasileiro se origina; conquanto todos eles orassem, perpetraram erros graves ao longo de suas histórias, tanto por suas ações quanto omissões, erros estes que repercutem negativamente em suas sociedades até hoje.

A ausência de Neemias abriu espaço para o erro. Neemias fora de Jerusalém era a ausência de um espírito que tem temor, é fiel e zeloso da palavra, obedece aos mandamentos, e não tergiversa quando o evangelho é menosprezado; um espírito crítico e vigilante, cuja contínua transformação da mente pelo Espírito não permite que tenha o entendimento entorpecido, não mais distinguindo o certo do errado. Neemias não era sacerdote, profeta ou escriba, não tinha nenhum cargo oficial na estrutura religiosa da época, não obstante agiu com poder, motivado pela coerência com a Palavra. Nós somos (ou deveríamos ser) os Neemias de hoje, não podemos nos ausentar da administração das nossas igrejas, sob pena de permitirmos a existência ou o surgimento de hábitos e práticas que desagradam a Deus. Temos que estar sempre alertas para identificar atos que não se coadunam com o a Palavra, não importando se vêm de nós mesmos, do nosso irmão ou da liderança; para isso é necessário que tenhamos conhecimento do que se passa administrativamente na igreja, de maneira que possamos ser fiéis vigilantes dos recursos do reino. Somos todos sacerdotes, apesar desta verdade bíblica ser pouco enfatizada em tempos de alguns líderes pouco afeitos a contrariedades, por atrelaram a palavra liderança ao poder de exercer sua vontade e não à possibilidade de servir mais. Uma liderança que não está aberta a questionamentos e exortações baseados na Palavra mostra-se em descompasso com o evangelho, e deve ser levada a mudar de direção, pois suas velas estão contra o sopro do Espírito. Preferências arbitrárias na escolha dos fornecedores de equipamentos, materiais e serviços, critérios confusos e questionáveis no direcionamento dos recursos para obreiros e missionários, benefícios abusivos, etc. A figura dos pastores e presbíteros não pode ofuscar ou tirar a clareza e a autoridade primeira das Escrituras. Sacerdotes, falsos profetas, líderes corruptos e infiéis ao longo da bíblia deveriam nos servir de alerta para que a submissão inicial não se torne acrítica, confortável e preguiçosa, tornando-nos cúmplices do erro, cegando-nos para o mal.

Neemias por diversas e repetidas vezes se aborreceu (Ne 5:6), repreendeu (Ne 5:7), questionou (Ne 5:9), se indignou (Ne 13:8), contendeu (Ne 13:11), protestou (Ne 13:15), condenou e mandou corrigir os erros, descasos e pecados cometidos pelos sacerdotes, pelos magistrados, pelos nobres e pelo povo (Ne 13:11,17,25). Hoje é comum que as (raras) críticas feitas às lideranças, à luz da palavra, com zelo, e em obediência e coerência com o espírito profético e apostólico do evangelho, sejam, por vezes, desonesta e injustamente rotuladas de divisoras, facciosas e perturbadoras da “paz” e da “união” da igreja (paz e união estas que apenas válidas quando alicerçadas nas verdades bíblicas), tal como quis fazer o rei Acabe a Elias e rei Jeroboão a Amós, recebendo a devida resposta dos profetas. E sucedeu que, vendo Acabe a Elias, disse-lhe: És tu o perturbador de Israel? Então disse ele: Eu não tenho perturbado a Israel, mas tu e a casa de teu pai, porque deixastes os mandamentos do SENHOR (...) (1Rs 18:17-18). Apego à verdade, e não submissão ao erro e ao engano. Como nos mostram Neemias, os profetas, e os próprios reformadores, a indignação, o confronto e a contenda não devem ser estigmatizados, sendo a ausência deles caminho certo para a perdição. A boa contenda está embasada na Palavra, movida pelo Espírito e envolta pelo amor, já a má contenda nasce da inveja (Tg 3:14), da vaidade e futilidade (Tt 3:9), além da carnalidade (1Co 3:3). Rotulando a quem questiona, se interdita a troca e a confrontação de ideias e dificulta-se o hábito da reflexão e da iluminação do Espírito, da renovação da mente, e com ela, dos propósitos e práticas. A crítica e a má receptividade aos questionamentos realizados dentro do espírito bíblico, em geral se originam na insegurança, vaidade, medo, autoritarismo, soberba e apego ao poder; comumente recobrem decisões, práticas e hábitos na gestão da igreja que, se expostos à luz, seriam, no mínimo, questionados. Submissão não é sinônimo de ausência de questionamento. Perguntas pertinentes merecem resposta.

Epílogo

Soube do mal que Eliasibe fez para beneficiar a Tobias...(Ne 13:7) - Alguns sabiam , discerniam , mas  não se opuseram, por ceder ao medo, por temer retaliações do sumo sacerdote e dos seus. Outros podem ter contado o fato a Neemias sem sequer perceber o mal presente na atitude de Eliasibe. Os dois casos são igualmente graves, o medo que imobiliza e inutiliza o discernimento, e a ingenuidade e falta de discernimento que deságuam no apoio a ações e a pessoas cujas reais motivações não apontam para Deus, apesar de usualmente serem as que mais se utilizam do seu nome, conforme nos alerta o Senhor Jesus (Mt 7:22).

Soube do mal que Eliasibe fez para beneficiar a Tobias – A atitude de Eliasibe em tomar espaço e recursos da casa de Deus foi essencialmente má, conforme denunciada por Neemias. A simples motivação de beneficiar ou ajudar alguém não chancela qualquer ato como correto diante de Deus. O uso de tal justificativa para se lançar mão inadvertida e arbitrariamente dos recursos da casa de Deus é frágil e não encontra sustentação no evangelho; o fato de alguma medida ser aprovada por qualquer maioria, não transforma um ato em essencialmente correto, pois ainda não inventaram conselhos de homens que subvertam a palavra da verdade, porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração (Hb 4:12).

Artur Leonardo Gueiros Barbosa

domingo, 7 de outubro de 2012

Base sólida para a reconstrução



No livro de Neemias, em seu capítulo quinto, encontramos um episódio essencial para o processo de reconstrução da cidade de Jerusalém, tarefa a qual o filho de Hacalias tinha se proposto realizar diante de Deus. Trata-se do momento em que os homens e mulheres do povo clamaram contra seus irmãos pela situação em que se encontravam: pediam trigo para não morrerem de fome, eles e seus filhos; tiveram suas terras, suas plantações e suas casas penhoradas e na mão de credores; precisavam tomar empréstimos até para pagar os tributos do rei; por fim, seus próprios filhos e filhas tinham sido sujeitos à escravidão a outros judeus, e não havia nada que eles pudessem fazer, eles simplesmente não tinham como se defender (Ne 5:1-5). Estabeleceu-se uma situação em que privilegiados aproveitavam-se da condição frágil e desesperadora dos outros para explorá-los sem limites; estado agravado pelo fato dos credores serem irmãos dos devedores, todos judeus.

É comum, no nosso dia-a-dia, ouvirmos expressões como “tempo é dinheiro” e “amigos, amigos, negócios à parte”. Devido à contínua repetição, muitos cristãos acabam, sem perceber, moldando-se ao conteúdo destas máximas que estabelecem o ganhar dinheiro como parâmetro “ético” no lugar do evangelho, orientando suas vidas e tomando suas decisões baseados na lógica insensível, fria e desumana do “custo de oportunidade”. Os conceitos cristãos de misericórdia, justiça, serviço e mordomia não mais definem e apontam o uso dos recursos dados por Deus. Do mesmo modo que nos tempos de Neemias, há hoje irmãos que ao emprestar recursos a pessoas em dificuldades, em situação de privação e angústia, muitas vezes irmãos na fé, quando não parentes próximos, o fazem a juros, incorrendo no mesmo comportamento dos credores judeus, alvos da indignação do povo. Ignorar o sofrimento de parentes e irmãos estando em situação de ajudá-los é um ato infeliz, condenado firmemente nas palavras do apóstolo Paulo a Timóteo: se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé, e é pior do que o infiel (1Tm 5:8).  

Crentes que são empregadores, empresários, e não garantem nem respeitam os direitos trabalhistas dos seus empregados, como a carteira assinada; que não lhes pagam em dia e condignamente o salário devido (Mt 10:10) mesmo tendo a possibilidade de fazê-lo (Tiago 5:4,5); que os constrangem a trabalhos e serviços extras sem a devida compensação, aproveitando-se da fragilidade e impotência alheia (... e nada podemos fazer... Ne 5:5), agem como os usurários dos tempos de Neemias. Tanto no passado quanto nos dias de hoje, tais pessoas se utilizam de argumentos cínicos e distantes do temor do Senhor para tentarem justificar a exploração e o abuso que cometem com aqueles que se encontram desprotegidos e em suas mãos: dizem que “escolheram” ajudar, quando podiam se negar a fazê-lo; o fato é que se se decide ajudar alguém, deve-se fazê-lo sem se buscar tirar qualquer vantagem disso. Ainda mais grave se torna este tipo de comportamento patronal quando os empregados, desrespeitados em seus direitos e dignidade, são irmãos em Cristo Jesus. 
Tal situação escandaliza duplamente o evangelho.

Neemias, ao tomar conhecimento da situação do povo, muito se aborreceu e se indignou, agindo energicamente para corrigi-la por identificar ali um claro desrespeito à lei de Deus - O que vocês estão fazendo não está certo. Vocês devem andar no temor do Senhor para evitar a zombaria dos outros povos... (Ne 5:9). Ele identificou o erro e agiu para extirpá-lo de imediato. Tratou aqueles homens pelo que eles realmente eram: Usurários! Exigindo deles a devolução de absolutamente tudo o que haviam tomado dos seus irmãos como consequência das penhoras, incluindo os juros cobrados. Para o empregador que nega os direitos básicos dos seus empregados, compensar a falta de testemunho com religiosidade - músicas, reuniões e cultos no local de trabalho, “fartas” contribuições e participação nas atividades eclesiásticas – pode até iludir a maioria dos homens e a si mesmo, mas não engana os que, à luz do Evangelho, se atém mais aos atos que às palavras, e, mais importante, não engana a Deus (Tg 1:22).

Neemias e seus chegados abriram mão do dinheiro e do trigo que tinham emprestado, pois levaram em conta o estado de dificuldade do povo. Posteriormente, quando atuando como governador na terra de Judá,  o servo de Deus se absteve das práticas opressoras e impiedosas dos seus antecessores e declarou o porquê: eu assim não fiz, por causa do temor de Deus. Ne 5:15. O cristão não se aproveita da fragilidade do outro para lucrar. O cristão não se esconde por trás de bordões cínicos, criados por aqueles que servem à riqueza, como desculpa para ser insensível e indiferente à situação do próximo, mas anda segundo a palavra da verdade, agindo retamente. O cristão abre mão de um direito seu, se a perpetração desse direito vier a privar outros de recursos que são essenciais à sua dignidade.

O servo do Senhor que liderava a reconstrução de Jerusalém convocou um grande ajuntamento e confrontou um pecado real que afetava a vida de todo o povo remanescente na terra de Judá. Tal atitude nos fornece dois pontos de reflexão: O primeiro é que não vale a pena continuarmos a vida diária na comunidade cristã andando no automático, com muito ativismo e pouca ou nenhuma reflexão e autocrítica, sem tratarmos os pecados que vão surgindo no caminho. Para Neemias, a correção de rumo era tão importante quanto à reconstrução em si, caso contrário, estariam edificando um castelo de areia, com bases que não apontavam para o reino de Deus. O segundo ponto é que cabe a nós e, sobretudo, às nossas lideranças, na forma dos presbíteros docentes e regentes, refletirmos se as práticas pecaminosas denunciadas pelo povo de outrora e combatidas por Neemias, não estão presentes também hoje entre nós, e se não merecem ser tratadas com o mesmo zelo e diligência com que o são outros pecados, notadamente os relativos à sensualidade.  

segunda-feira, 19 de março de 2012

Autoridade e Serviço

Grandes problemas, traumas e divisões já ocorreram na história da Igreja, no interior das comunidades e mesmo nos relacionamentos pessoais entre irmãos, devido a um conceito enganoso e abusivo na compreensão e vivência da autoridade cristã. A autoridade exercida em descompasso com o espírito de Cristo traz consigo um rastro de dor, mágoas e divisão, e se apóia no medo, na imaturidade e na manipulação. Em contraponto, a autoridade embasada na vida com Deus, orientada pelos princípios do Reino e coerente com o caráter de Jesus, é leve, natural, humilde e desapegada do exercício do poder; ela traz união, serenidade e orientação.

Sendo assim, na escolha entre um ato correto, irrepreensível à luz do evangelho, e a obediência ou submissão às autoridades quando estas tomam decisões ou impõem ações que desagradam ao Senhor, não há o que pensar. Os apóstolos Pedro e Paulo já nos deram a resposta, quando, após chamarem os cristãos à submissão em relação ao Estado e a todas as autoridades constituídas (1 Pe 2:13,14; Rm 13:1), serenamente os confrontaram, no momento em que suas determinações tornaram-se destrutivas e contrárias à vontade de Deus, à lei do amor (Mt 22:37-39).  Ao ser ordenado que não mais pregasse, Pedro disse: “Julgai se isto é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus; pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos “(At 4:19,20). Também Paulo, quando viu que o estado estava deixando de cumprir sua função ordenada por Deus de prover justiça para todos, admoestou-o com energia e insistiu que o erro fosse corrigido (At 16:37). 

Estavam Pedro e Paulo em oposição ao seu próprio princípio de autonegação e submissão? Não. Eles simplesmente entenderam que a submissão chega ao seu limite quando se torna destrutiva. Na verdade, eles deram exemplo da subordinação renovadora trazida por Cristo, recusando-se com mansidão a obedecer a uma ordem destrutiva e dispondo-se a sofrer as conseqüências. Os mesmos limites se aplicam às relações de sujeição mútua, exigidas ao longo do novo testamento; uma postura obrigatória a todos os cristãos: homens e mulheres, pais e filhos, senhores e servos (Ef 5:21). Ordena-se que vivamos uma vida de submissão porque Jesus viveu uma vida de submissão, e não porque estamos num determinado lugar ou posição na vida. A autonegação é uma postura que se ajusta aos que seguem o Senhor crucificado (Lc 9:23). O único motivo que impele à submissão é o exemplo de Jesus. ... o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir... 

Neste ponto, cabe chamar a atenção para a confusão existente no conceito de autoridade, bem como nos limites da submissão. O clássico cristão “Celebração da Disciplina”, do Rev. Richard Foster, traz uma abordagem importante sobre o tema: Quando as pessoas começam a mudar-se para o reino espiritual, veem que Jesus está ensinando um conceito de autoridade que se opõe totalmente aos sistemas deste mundo. Elas passam a compreender que a autoridade não reside em posições, graus, títulos, bens, ou qualquer símbolo exterior. O caminho de Cristo segue em outra direção: o caminho da autoridade espiritual. A autoridade espiritual é produzida e sustentada por Deus, podendo ou não ser reconhecida pelas instituições humanas; igualmente, não faz diferença alguma... Mas, que dizer das pessoas que se encontram em “posições de autoridade”, mas não possuem autoridade espiritual? Uma vez que Jesus deixou claro que a posição não dá autoridade, deveria esta pessoa ser obedecida? Não seria preferível desconsiderar toda autoridade humana ordenada e buscar a autoridade espiritual e só a ela submeter-nos? A resposta não é simples, mas também não é impossível. A subordinação renovadora nos mandaria viver em submissão à autoridade humana enquanto esta não se torna destrutiva. A isto eu acrescentaria outro motivo porque, no meu entender, devemos submeter-nos às pessoas investidas de autoridade, que não conhecem a autoridade espiritual. Devemos nos submeter por delicadeza comum e por compaixão pela pessoa que se encontra nessa situação difícil. É muito angustiante estar numa posição de autoridade e saber que nossas raízes não têm profundidade suficiente na vida divina para comandar com autoridade espiritual. Conheço a sensação frenética que faz uma pessoa empertigar-se, esbaforir-se, e imaginar truques inteligentes para induzir as pessoas à obediência. 

O Senhor Jesus nos deu o único critério de autoridade válido no seu reino: o serviço (Mt 20:25-28). Aqueles que contam com o discernimento evangélico concedido aos que andam no Espírito, reconhecem e naturalmente se submetem àqueles que têm autoridade espiritual. Com o serviço vêm a humildade e a sabedoria. Tal sabedoria do alto se faz necessária, e conquanto a autoridade espiritual venha acompanhada de poder, sua confirmação se dará justamente no uso sábio e adequado deste poder, que não subjugará, explorará ou manipulará os outros, mais os servirá e os ajudará na caminhada com Cristo. 

Artur Leonardo Gueiros Barbosa

Igreja x Empresa


“Somos uma igreja, não uma empresa”. Para todo crente, esta frase tem um sentido inicial claro, uma ideia de fácil entendimento.

A igreja encontra sentido nas pessoas, em práticas que objetivam a construção de uma comunidade solidária, uma nova humanidade, sustentada pelos valores do Reino, que revelam ao mundo Deus e a sua Verdade, e que tem sua origem e força na vitória de Cristo sobre os poderes do mal. As empresas, por sua vez, encontram sentido no lucro crescente; e para terem seu objetivo sempre alcançado, as pessoas, a lei e a ética costumam ficar em segundo plano (através da sonegação de impostos e de direitos trabalhistas, subornos, lobbies, compra de sentenças, etc), pois, conforme bem descreve Hanna Arendt, "O dinheiro destrói as raízes por onde vai penetrando, substituindo todos os motivos pelo desejo de ganhar. Vence sem dificuldade os outros motivos, porque pede um esforço de atenção muito menor. Nada mais claro e simples que uma cifra.". Desta forma, temos dois projetos que revelam sentidos distintos e antagônicos.

Mas é fundamental analisarmos outros aspectos da dualidade Igreja x Empresa, de modo a evitarmos cair numa visão simplista, mesmo maniqueísta, da frase (que demonize práticas saudáveis, e coroe hábitos pouco prudentes), uma vez que há exemplos na funcionalidade das empresas que não merecem nosso desprezo, mas sim nossa consideração.

É do conhecimento geral, que movidos pelo desejo de aumentar seus lucros, seja através da captação de novos clientes, de investidores, ou de financiamentos, as empresas perceberam a importância e se viram forçadas a criar práticas e instrumentos de transparência, controle e prestação de contas. Tais ações chamam a atenção, não apenas porque ajudam a dar uma imagem de credibilidade e confiança à organização diante do público, mas também porque dão tranqüilidade a quem gerencia o dinheiro, dificultando desvios e mau uso, evitando desconfianças, comentários e suspeitas, em parte justificáveis, dada a natureza caída do homem e o pecado que nos assedia tenazmente.

Enquanto corpo dinâmico, impulsionado e guiado pela verdade evangélica, não devemos ignorar tais práticas positivas - convergentes com o espírito apostólico, e que contribuem com o Reino e com a Igreja – mas sim observá-las e excedê-las, irmos além (Mt. 5:20).

Seguindo num exercício reflexivo, e buscando analisar mais a fundo as possíveis utilizações da frase em questão, percebemos que seria despropositado, sem sentido e, sobretudo, pouco bíblico, seu uso para justificar - na gestão dos recursos e no lidar com as pessoas - práticas pouco sábias, distantes do bom senso, que pudessem agredir a consciência e, mais importante, que impedissem que a paz de Cristo se estabelecesse no coração.

Se somos parte de comunidades cristãs, e não de empresas, devemos - por esse motivo ainda mais - refletir sobre o aperfeiçoamento das nossas práticas na administração das igrejas, levando em conta os exemplos que vêm dos mundos público e privado, sempre sob a luz do evangelho. As igrejas costumam orar no momento do ofertório, pedindo a Deus sabedoria no uso dos recursos do Reino. Hábitos saudáveis de transparência, consultas e prestação de contas a toda a comunidade - utilizando critérios objetivos, claros e imparciais na destinação dos recursos e na escolha dos gastos, dos fornecedores, no arbitramento de conflitos de interesse (de maneira a explicitar o zelo e a humildade no lidar com o dinheiro, desfazendo quaisquer sombras de dúvidas) - são uma ótima maneira e oportunidade de demonstrar sabedoria, dado que tais práticas dificultam tentações, dão maior legitimidade às decisões e tornam os membros mais envolvidos no caminhar da igreja.

sábado, 25 de junho de 2011

Prosperidade: substantivo coletivo


O que pensamos quando ouvimos a palavra prosperidade? Ela pode ser tida como um meio para a felicidade que, no conceito do mundo, seria a possibilidade de adquirir e satisfazer vontades e desejos pessoais. Contudo, como tal conceito, baseado na saciedade de desejos e vontades próprias poderia coexistir com o evangelho do Senhor Jesus? Que abriu mão de todas as suas vontades para que a vontade do seu Pai fosse realizada na vida dele? (Jo 4:34, 5:30) Cristo exige a mesma atitude dos seus discípulos (Mc 3:35). 

O caminho apresentado para uma vida próspera mostra-se outro, revelado ao longo das Escrituras, como no salmo primeiro ou nas bem-aventuranças. Nestas, percebemos que a felicidade está em sermos aquilo para o qual fomos criados. Imagem e semelhança do Criador. Quanto mais avançamos nesta vereda, mais felizes somos, pois mais perto ficamos da nossa razão de existir. Independentemente das aflições da vida, temos ânimo (Jo 16:33). Neste aspecto, o cristão próspero é aquele que age como o Mestre, o qual, com sua vida (Mt 8:20, Lc 22:35) e suas palavras (Lc 12:15, 16-21, 33), nos mostra que a prosperidade material em si e o uso que o homem do mundo faz dela não são alvo nem modelo para o povo de Deus. Se insistimos e criamos desculpas para priorizar esse alvo em nossas vidas, no lugar da busca pelo reino de Deus e sua justiça, deveríamos refletir sobre nossas escolhas e o caminho que estamos trilhando, pois a Bíblia nos diz que simplicidade é liberdade, e duplicidade é servidão (Lc 16:13), ou, como bem disse Kierkegaard: “Pureza de coração é desejar uma só coisa”. Diante disso, permitir que a busca e vivência do reino seja dividida pelo desejo de prosperidade material mostra-se uma atitude pouco sábia.

Mas se o mundo idolatra a prosperidade e a utiliza de forma incorreta, como deve ser entre nós, comunidade através da qual Deus quer se revelar ao mundo? Analisemos a afirmação feita pela rainha de Sabá ao visitar Salomão e o reino de Israel, conhecendo mais do Deus daquele povo e das grandes bênçãos materiais que Ele lhes havia concedido: “Por causa do amor eterno do Senhor para com Israel, ele te fez rei, para manter a justiça e a retidão(1 Reis 10.9). A rainha nos revela o propósito do Senhor para a prosperidade material de Israel. Todas as manifestações de prosperidade - sejam elas riqueza, poder ou influência - só têm sentido se utilizadas em benefício dos necessitados, dos pobres, dos injustiçados e dos mais frágeis da sociedade e da comunidade. Vejamos a instrução de Paulo: “Ordene aos que são ricos no presente mundo que não sejam arrogantes, nem ponham sua esperança na incerteza da riqueza, mas em Deus (...) Ordene-lhes que pratiquem o bem, sejam ricos em boas obras, generosos e prontos para repartir” (1 Tm 6:17-19). É esta ação sincera, no temor do Senhor, que livra os prósperos materialmente da escravidão ao dinheiro e do mau uso da prosperidade, do vazio que nasce quando você deixa de converter suas bênçãos em bênçãos para os outros.

Ainda tendo como exemplo o reinado de Salomão, ele, assim como nós, poderia usar seu poder, riqueza e sabedoria para fazer alguma coisa em relação ao clamor do oprimido ou fingir que não ouviu, fingir que a dor do outro nada tem a ver com ele e com os meios que Deus lhe deu para ajudar o aflito. No meio da descrição bíblica sobre o governo de Salomão, há um versículo que explicita a má escolha feita pelo rei, em relação ao uso de poder e riqueza da Israel de seu tempo: “O rei Salomão impôs trabalhos forçados para que se construísse o templo do SENHOR, seu próprio palácio, o aterro, o muro de Jerusalém, bem como Hazor, Megido e Gezer. (1 Reis 9:15) i - O palácio indica o foco no bem-estar próprio (luxo, conforto sem limites, ostentação), ii - o uso de escravos pelo povo que foi libertado maravilhosamente da escravidão, mostra indiferença e insensibilidade ao clamor do oprimido, posição em que ele esteve um dia, no Egito, iii - a construção de bases militares (Hazor e Megido) aponta para a preocupação em preservar, manter e proteger os recursos que deveriam ser usados para abençoar, e não, serem acumulados indiscriminadamente. Três desvios claros em relação ao plano de Deus para a riqueza e o poder de Israel, três desvios que se repetem todos os dias em nossas comunidades. A história do reinado de Salomão mostra que as ações do rei iam de encontro às ordens que o Senhor tinha dado ao povo através de Moisés no passado: “Esse rei, porém, não deverá adquirir muitos cavalos, nem fazer o povo voltar ao Egito para conseguir mais cavalos, pois o SENHOR lhes disse: ‘Jamais voltem por esse caminho’. (...) Também não deverá acumular muita prata e muito ouro.” (Dt 17:16-17)

Será que os nossos hábitos, padrões e prioridades de consumo mostram aos órfãos, viúvas e estrangeiros do nosso tempo que a prosperidade dada por Deus está sendo usada como Ele planejou? Para benção de muitos e glória sua? Ou estaria sendo utilizada de forma egoísta, para satisfazer as vontades e os desejos de uns poucos? Segundo Martinho Lutero: “Se nossos bens não estão disponíveis à comunidade, são bens roubados.” Ainda Ariovaldo Ramos afirma: “A divindade é quem sustenta a todos, porém, não a cada um, de modo que o pão (nosso) é de todos, e todos são responsáveis para que cada um tenha acesso ao que é para todos. Qualquer movimento diferente é apropriação indébita.”.

Que a nossa prosperidade seja a de todos, para que sejamos todos um.

Pais e Filhos


Quando eu era filho em companhia de meu pai, então ele me ensinava e me dizia: Retenha o teu coração as minhas palavras; guarda os meus mandamentos e vive. Pv. 4: 3,4.

Filhos rebeldes, desrespeitosos, afastados de Deus, sendo seduzidos pelo mundo é algo que sempre existiu e que nunca deixou de ser alvo da angústia paterna e materna. No entanto, faz-se necessário diferenciar quando os problemas com os filhos surgem em lares cuja educação procura refletir a Cristo e a palavra de Deus, de quando os problemas são fruto de incoerência, de mau exemplo, de uma disciplina descuidada, frouxa, que despreza a Sabedoria (Sl. 19:7). No primeiro caso, o problema surge apesar da criação, já no segundo, por causa dela. 

Infelizmente, tem se tornado uma cena comum hoje em dia testemunhar crianças - de todas as idades - responderem aos pais, aos avós, ofendendo-os,  sem serem repreendidos ou disciplinados. Tem sido usual até mesmo a inversão de papéis, com os filhos mandando nos pais, determinando as suas vontades, quando e como as querem ver atendidas. É triste ver que muitos pais, desprezando diariamente o fiel testemunho cristão para com seus filhos - omitindo a disciplina e a repreensão (Pv. 3:12; 13:24)-, procuram ensinar-lhes cacoetes religiosos, mandamentos de homens (Mc. 7:13; Is. 29:13), com entusiasmo inverso àquele que usam para dar aos seus filhos um exemplo de relacionamento profundo, verdadeiro e sincero com o Senhor. 

Um pequeno exemplo que serve para ilustrar o equívoco cometido por muitos pais é o uso de nome de Deus em vão. Algo que seria impensável dentro da comunidade cristã há quinze, vinte anos atrás, hoje se tornou corriqueiro entre os crentes de todas as idades, homens, mulheres e sacerdotes (os institucionais e todos nós, como parte do corpo de Cristo). É como se o mandamento tivesse sido apagado da Palavra, como se Jeová, o Redentor, o Santo de Israel (Is. 48:17) não precisasse mais ser alvo da nossa reverência e temor. Pais que dão exemplo em casa e na rua têm muito mais condições de verem suas instruções obedecidas pelos filhos do que aqueles que são incoerentes.

Saindo da infância e analisando da pré-adolescência à vida adulta, percebe-se que o exemplo e a coerência paterna (pai e mãe), em existindo, abrem as portas para outras ações que ajudam bastante no amadurecimento de um lar cristão saudável. Duas dessas ações são a abertura dos filhos para com os pais e a possibilidade de o filho ver-se desafiado em sua vida a realizar um propósito eterno. 

Aqui, o exemplo do rei Lemuel - explicitado no último capítulo de Provérbios - é emblemático. Nele, vemos que os conselhos de sua mãe não apenas alertam o rei sobre situações e hábitos que podem levá-lo a esquecer-se do querer de Deus, mais principalmente o impulsionam à ação, o impedem de seguir no imobilismo e na falta de sentido, os quais são porta aberta para as tentações, as quedas e o conseqüente distanciamento de Deus. 

Abre a boca a favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham desamparados. Abre a boca, julga retamente e faze justiça aos pobres e aos necessitados. Provérbios 31:8,9

O exemplo de Lemuel e sua mãe nos mostra a importância de um viver cristão que vai além do pietismo, que atenta para a Palavra sem seletividade, que se enxerga como agente transformador do mundo, para a Glória de Deus. A tarefa de fazer o mundo refletir os valores do Reino está sobre nós, Corpo de Cristo e a percepção desta enorme responsabilidade, sobretudo diante de uma realidade de injustiça, miséria e opressão como a que temos à nossa volta, faz com que nossos pensamentos, palavras e ações estejam voltados para cumprir a vontade de Deus na terra em todo o tempo. 

Assim, focados no que realmente importa, pondo-nos como obstáculo a todo o mal (Pv.8:13), e sem nos escondermos do nosso semelhante (Is. 58:7; Pv. 3:27), percebemos que pensamentos sombrios, tentações, fraquezas e desilusões empalidecem, não deixam de existir, mas perdem a força e a importância de outrora. Diante de uma vida de oração, amor pela palavra (Sl. 119:16-19), e ação que transforma a si próprio, ao próximo, e à realidade em seu entorno, as possibilidades de se deixar enlaçar decrescem na mesma proporção em que o relacionamento com o Pai amadurece.  Filhos que antes seriam tentados a tomar a forma deste século passam a se perceber como revolucionários de Deus, atuantes incansáveis na vivência e construção do seu Reino. O propósito transformador dá o tom de uma vida plena, em Cristo.  

O exemplo dá mais poder à palavra, a sabedoria (apesar de exigir dos pais paciência e fé) é mais eficaz que o legalismo, o cumprimento do grande mandamento inspira, impulsiona e renova, enquanto que a alienação traz amargura, desnorteia, desanima e enfraquece. 

Esta reflexão foi escrita por alguém que foi sempre disciplinado com amor, por amor e no amor, e que percebe os benefícios trazidos por essa disciplina fruto do temor dos pais pelo Senhor; alguém que aprendeu com os próprios pais a não colocar nada antes de Deus, nem mesmo os filhos. E que, por isso mesmo, pode hoje alegrar-se com a bendita herança espiritual recebida.

Fraternalmente em Cristo,

Artur Leonardo Gueiros Barbosa