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quarta-feira, 3 de julho de 2013

CIRO, ESDRAS E A LIÇÃO NEGLIGENCIADA



É comum e, por vezes, até curioso, encontrarmos na Bíblia o detalhado e extensivo registro de genealogias, a preocupação em registrar o agir de Deus na história em pequenas, simples e discretas ações de pessoas comuns, mas usadas pelo Senhor para sua glória. O registro nas crônicas, a citação e ênfase em atos aparentemente menores, procedimentais e burocráticos, como arquivamentos, contagens, pesagens e rechecagens são encontrados com abundância em toda a palavra de Deus. Para além da informação em si, qual o sentido de se explicitar na Palavra tais tarefas e procedimentos, tão corriqueiros e ordinários? Atentemos para os trechos da Palavra a seguir:

Também o rei Ciro tirou os utensílios da casa do SENHOR, que Nabucodonosor tinha trazido de Jerusalém, e que tinha posto na casa de seus deuses. Estes tirou Ciro, rei da Pérsia, pela mão de Mitredate, o tesoureiro, que os entregou contados a Sesbazar, príncipe de Judá. E este é o número deles: trinta travessas de ouro, mil travessas de prata, (...), e mil outros utensílios.(...); todos estes levou Sesbazar, quando os do cativeiro subiram de babilônia para Jerusalém. Esdras 1:7-11

Também estes subiram de Tel-Melá (...) e Imer; porém não puderam provar que as suas famílias e a sua linhagem eram de Israel.(...) E dos filhos dos sacerdotes: os filhos de Habaías, de Coz, de Barzilai, (...). Estes procuraram o seu registro entre os que estavam arrolados nas genealogias, mas não se acharam nelas; assim, por imundos, foram excluídos do sacerdócio. E o governador lhes disse que não comessem das coisas consagradas, até que houvesse sacerdote com Urim e com Tumim.Esdras 2:59-63

Agora, pois, se parece bem ao rei, busque-se na casa dos tesouros do rei, (...), se é verdade que se deu uma ordem pelo rei Ciro para reedificar esta casa de Deus em Jerusalém; e sobre isto nos faça saber a vontade do rei. Então o rei Dario deu ordem, e buscaram nos arquivos, onde se guardavam os tesouros em babilônia. E em Acmeta, no palácio, que está na província de Média, se achou um rolo, e nele estava escrito um memorial que dizia assim: (...). Esdras 5:17 e 6:1-2 

Então separei doze dos chefes dos sacerdotes: Serebias, Hasabias, e com eles dez dos seus irmãos.
E pesei-lhes a prata, o ouro e os vasos; que eram a oferta para a casa de nosso Deus,(...). E pesei em suas mãos seiscentos e cinqüenta talentos de prata, e em vasos de prata cem talentos,(...). E disse-lhes: Vós sois santos ao SENHOR, e são santos estes utensílios, como também esta prata e este ouro, oferta voluntária, oferecida ao SENHOR Deus de vossos pais. Vigiai, pois, e guardai-os até que os peseis na presença dos chefes dos sacerdotes e dos levitas, e dos chefes dos pais de Israel, em Jerusalém, nas câmaras da casa do SENHOR. Então os sacerdotes e os levitas receberam o peso da prata, do ouro e dos utensílios, para os trazerem a Jerusalém, à casa de nosso Deus. E partimos do rio Aava, no dia doze do primeiro mês, para irmos a Jerusalém; (...). E chegamos a Jerusalém, e repousamos ali três dias. E no quarto dia se pesou a prata, o ouro e os utensílios, na casa do nosso Deus, por mão de Meremote, filho do sacerdote Urias; e com ele Eleazar, filho de Finéias, e com eles Jozabade, filho de Jesuá, e Noadias, filho de Binui, levitas. Tudo foi contado e pesado; e todo o peso foi registrado na mesma ocasião.
 Esdras 8:24-34

Os exemplos acima nos ajudam a compreender o porquê do registro de tarefas caracterizadas como administrativas. A chave está, em parte, na afirmação de Paulo destacando que a motivação última de tudo o que fazemos deve ser a glória do Pai (1 Co 10:31). O Senhor nos mostra através do Verbo que há um jeito certo de se viver, um modo divino de agir em cada situação, de modo que sua glória seja manifesta. Ao registrar repetidamente em sua palavra pequenos atos administrativos, o Justo demonstra não apenas que Ele é glorificado nestes gestos, mas também que estas ações têm uma maneira correta de serem realizadas, e que a não atenção a isso é descaso com o Deus da glória, que registra desde o gênesis sua atenção com a ordem e justeza das coisas, atributos seus.

A palavra de Deus de um modo geral, e o livro de Esdras em particular, apresentam, como visto acima, diversos fatos e práticas que demonstram a genuína preocupação dos servos de outrora com o correto, preciso e completo registro histórico da comunidade, dos seus membros e das suas decisões e atos; com a transparência das informações e das ações, com a checagem, verificação e atestação em tudo o que se faz, e com a disposição sábia, humilde e amorosa (à semelhança de Cristo) de incluir os membros da comunidade nas decisões, consultando-os, sem tomar para si a prerrogativa do poder, exercendo-o como o mundo o exerce; lição devidamente aprendida pelos Apóstolos (At 15:6-22), mas comumente esquecida pelos cristãos ao longo da história, pelos que insistem em enxergar a vida e o exercício do poder (inclusive o eclesiástico) pelo prisma do mundo. A maneira como se administra a igreja deve refletir o reino, e as Escrituras são claras ao demonstrar que na comunidade dos santos - seja o Israel pós-exílio babilônico de Esdras, seja na igreja primitiva, ou nas comunidades cristãs atuais -, organização, registro, clareza, transparência, precisão, imparcialidade, revisão, humildade, e inclusão, ou empoderamento, são práticas e comportamentos imprescindíveis a um agir coerente com a fé que professamos.

Ocasiões como assembleias, e atos cotidianos como tarefas e decisões de ordem administrativa, apesar de usualmente desprezados e tidos pejorativamente por alguns como “burocráticos”, como um “mal necessário”, são parte de nossa adoração a Deus; são atos em que o Criador pode, ou não, ser glorificado, como de resto tudo o que fazemos ou deixamos de fazer. Deus não é obedecido, adorado e glorificado apenas quando uma igreja envia missionários e entoa louvores e cânticos espirituais, ou mais raramente quando aborrece o mal e a injustiça (pontual ou estrutural) ou se compadece dos pobres e desalentados (Zc 7:9,10), mas em cada ação diária, na obediência, no zelo, no amor e na coerência em todas as áreas de nossas vidas e de nossa comunidade. Negligenciar práticas que glorificam a Deus nos atos administrativos da igreja e querer obedecê-lo apenas em determinadas áreas soa incoerente e temeroso, revela uma concepção limitada e incongruente do evangelho, uma tentativa de coexistência de pensamentos contrários, o famoso duplipensar orwelliano, que gera um porvir incerto, frágil e arenoso.

Neste ponto, diante da imensa maioria das igrejas que lutam todos os meses para pagar suas contas - que sabem o que é esperar um milagre para honrar seus compromissos mais básicos, como água, luz e o humilde salário do seu único pastor -, a coerência, o cuidado e a responsabilidade das igrejas ricas em todos os seus atos devem ser ainda maiores. Oxalá não sejamos encontrados culpados, mas possamos sim trilhar sempre o caminho da simplicidade, da humildade e da correção.

Sugestões para a IPG

1- Utilização de listagem completa dos membros efetivos e comungantes nas assembleias

O atual método de atestação da presença dos membros nas assembleias, em que cada um assina seu nome num livro de atas, deveria ser substituído pelo uso da listagem completa dos membros efetivos e comungantes da igreja, os quais deveriam assinar, cada qual, ao lado do seu nome na lista. Deste modo, não apenas se facilitaria a identificação posterior dos presentes para registro histórico, como se dificultaria o registro equivocado do não-membro ou de membro não comungante, seja por engano, desinformação ou má-fé.

2- Adoção de cédulas de votação com possibilidade de registro do voto nulo

Por último, no tocante a eleições para pastor, em que haja apenas um candidato, o bom senso e o espírito bíblico nos compelem a evitarmos cédulas que não deem ao membro a opção de registrar o voto nulo num espaço próprio. É constrangedor, nos casos de candidato único, haver apenas o espaço com o nome do candidato para marcar, sendo os membros obrigados a deixarem a cédula intocada em caso de discordância. O fato de se oferecer unicamente o espaço com o nome do candidato pode induzir alguns a marcá-lo inadvertidamente. A possibilidade de se marcar nulo num espaço específico fortalece o processo, na medida em que este se torna mais confiável e neutro.


sábado, 25 de junho de 2011

Cristianismo e Política

O Evangelho, o senhorio de Cristo, se espraia por todos os aspectos de nossas vidas. Tudo pode e deve ser utilizado pelo cristão como instrumento de graça, como materialização do amor: um sorriso, um email, um olhar, um blog, um livro, um tweet, um abraço, um olá e, da mesma forma, a política. Ela nada mais é do que a ferramenta na qual as relações de poder se estabelecem; não se restringe a voto, candidatos, congresso etc, mas abrange o nosso dia-a-dia, nossas decisões, nossos posicionamentos.


O partido de Cristo é o Reino, seus valores são o parâmetro, e o objetivo final é a glória de Deus. Num estado democrático, a política é o instrumento pelo qual se dão as maiores e mais abrangentes transformações para o país. Toda e qualquer demanda ou pressão exercida pelos diversos atores sociais tem, necessariamente, que desembocar na política institucional para que tome forma legal atingindo, assim, todos os cidadãos. Como servos do Altíssimo, deveríamos buscar desenvolver um maior interesse pela política, explorar seu potencial como instrumento de transformação da realidade, refletindo os valores de Deus na sociedade.


A política deve ser cuidada pelos cristãos, aperfeiçoada, bem utilizada, e não, desdenhada. O fato de candidatos e partidos caírem em erro, não deveria nos surpreender; não temos nenhuma ilusão quanto ao estado de total depravação do homem e à luta contínua contra o pecado que tenazmente nos assedia. Pelo contrário, nossa relação com Deus - ao expor nossas fraquezas - nos impulsiona a aperfeiçoar a política, de maneira a dificultar que a ganância, a vaidade e o egoísmo humanos tenham espaço nas estruturas econômicas e sociais, gerando fome, miséria e dor. Nosso relacionamento com o Pai deve nos mover para políticas públicas que corrijam a vil miséria que insulta os céus, caso contrário, as pedras continuarão clamando, e o Senhor continuará usando ímpios para realizar a tarefa que nos foi endereçada. Multipliquemos, pois, o talento que nos foi confiado. Mas, chegando também o que recebera um talento, disse: Senhor, eu conhecia-te, que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste; E, atemorizado, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu. Respondendo, porém, o seu senhor, disse-lhe: Mau e negligente servo; sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei?Devias então ter dado o meu dinheiro aos banqueiros e, quando eu viesse, receberia o meu com os juros. Tirai-lhe pois o talento, e dai-o ao que tem os dez talentos. Porque a qualquer que tiver será dado, e terá em abundância; mas ao que não tiver até o que tem ser-lhe-á tirado. Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.


Preocupamos-nos mais com as conseqüências: aborto e homossexualismo, do que com as causas - objetização da mulher na mídia, abuso sexual de crianças, tráfico de seres humanos, qualidade dos programas de TV, desigualdade e opressão no campo e na cidade, exploração no trabalho, impostos injustos, juros bancários extorsivos, destruição da natureza. Enquanto Corpo de Cristo, temos que ser a materialização do amor de Deus na sociedade que nos cerca (na qual deveríamos estar inseridos), mostrando através das boas obras - “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” -, que Deus se importa e que tem um plano melhor para o mundo. O Eterno exige que identifiquemos o mal (Informa-se o justo da causa dos pobres, mas o perverso de nada disso quer saber. Pv. 29:7) e o combatamos, onde quer que se manifeste, pois praticar a justiça é alegria para o justo, mas espanto, para os que praticam a iniquidade. Pv 21:15


Aborrecer o mal e colocar-se como prumo na construção de uma sociedade mais justa (Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão, para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito aos aflitos... Is 10:1,2.) e mais amorosa (O lobo habitará com o cordeiro,...; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará. Is 11:6) é um papel do qual não podemos nos furtar, e para o qual precisamos cultivar senso crítico e discernimento, fundamentais para a compreensão e a prática do Evangelho. A falta deles costuma gerar uma fé supersticiosa, cheia de medo, de dogmas e de autoritarismo, distinta da fé dinâmica vivida e pregada pelos reformadores (Ecclesia reformata semper reformanda).

Quando a igreja não tem discernimento histórico do seu papel, do que se passa no mundo, das correlações de força, das relações de causa e conseqüência, quando falta profecia (Pv 29:18), ela se afasta do pleno testemunho de Cristo. A Palavra e a história mostram que nem sempre a presença da igreja indica a presença de Jesus.  Os tristes exemplos das igrejas segregacionistas no sul dos EUA e na África do Sul, bem como as igrejas que apoiaram e deram suporte aos golpes militares na América do sul revelam isto. Se temos hoje dificuldade em entender nosso papel e compromisso diante da injusta realidade brasileira, a resposta se encontra em parte na nossa própria história eclesial, que sepultou, a duros golpes, o pensamento crítico e a reflexão, fazendo com que os erros do passado se tornassem os dogmas que engessam a compreensão e transformação do presente. Cabe-nos trazê-los (crítica e reflexão) à vida novamente, para que o Senhor nos guie pelas veredas da justiça, por amor do seu nome. Pois em Cristo, um outro mundo é possível.