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segunda-feira, 19 de março de 2012

Autoridade e Serviço

Grandes problemas, traumas e divisões já ocorreram na história da Igreja, no interior das comunidades e mesmo nos relacionamentos pessoais entre irmãos, devido a um conceito enganoso e abusivo na compreensão e vivência da autoridade cristã. A autoridade exercida em descompasso com o espírito de Cristo traz consigo um rastro de dor, mágoas e divisão, e se apóia no medo, na imaturidade e na manipulação. Em contraponto, a autoridade embasada na vida com Deus, orientada pelos princípios do Reino e coerente com o caráter de Jesus, é leve, natural, humilde e desapegada do exercício do poder; ela traz união, serenidade e orientação.

Sendo assim, na escolha entre um ato correto, irrepreensível à luz do evangelho, e a obediência ou submissão às autoridades quando estas tomam decisões ou impõem ações que desagradam ao Senhor, não há o que pensar. Os apóstolos Pedro e Paulo já nos deram a resposta, quando, após chamarem os cristãos à submissão em relação ao Estado e a todas as autoridades constituídas (1 Pe 2:13,14; Rm 13:1), serenamente os confrontaram, no momento em que suas determinações tornaram-se destrutivas e contrárias à vontade de Deus, à lei do amor (Mt 22:37-39).  Ao ser ordenado que não mais pregasse, Pedro disse: “Julgai se isto é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus; pois nós não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos “(At 4:19,20). Também Paulo, quando viu que o estado estava deixando de cumprir sua função ordenada por Deus de prover justiça para todos, admoestou-o com energia e insistiu que o erro fosse corrigido (At 16:37). 

Estavam Pedro e Paulo em oposição ao seu próprio princípio de autonegação e submissão? Não. Eles simplesmente entenderam que a submissão chega ao seu limite quando se torna destrutiva. Na verdade, eles deram exemplo da subordinação renovadora trazida por Cristo, recusando-se com mansidão a obedecer a uma ordem destrutiva e dispondo-se a sofrer as conseqüências. Os mesmos limites se aplicam às relações de sujeição mútua, exigidas ao longo do novo testamento; uma postura obrigatória a todos os cristãos: homens e mulheres, pais e filhos, senhores e servos (Ef 5:21). Ordena-se que vivamos uma vida de submissão porque Jesus viveu uma vida de submissão, e não porque estamos num determinado lugar ou posição na vida. A autonegação é uma postura que se ajusta aos que seguem o Senhor crucificado (Lc 9:23). O único motivo que impele à submissão é o exemplo de Jesus. ... o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir... 

Neste ponto, cabe chamar a atenção para a confusão existente no conceito de autoridade, bem como nos limites da submissão. O clássico cristão “Celebração da Disciplina”, do Rev. Richard Foster, traz uma abordagem importante sobre o tema: Quando as pessoas começam a mudar-se para o reino espiritual, veem que Jesus está ensinando um conceito de autoridade que se opõe totalmente aos sistemas deste mundo. Elas passam a compreender que a autoridade não reside em posições, graus, títulos, bens, ou qualquer símbolo exterior. O caminho de Cristo segue em outra direção: o caminho da autoridade espiritual. A autoridade espiritual é produzida e sustentada por Deus, podendo ou não ser reconhecida pelas instituições humanas; igualmente, não faz diferença alguma... Mas, que dizer das pessoas que se encontram em “posições de autoridade”, mas não possuem autoridade espiritual? Uma vez que Jesus deixou claro que a posição não dá autoridade, deveria esta pessoa ser obedecida? Não seria preferível desconsiderar toda autoridade humana ordenada e buscar a autoridade espiritual e só a ela submeter-nos? A resposta não é simples, mas também não é impossível. A subordinação renovadora nos mandaria viver em submissão à autoridade humana enquanto esta não se torna destrutiva. A isto eu acrescentaria outro motivo porque, no meu entender, devemos submeter-nos às pessoas investidas de autoridade, que não conhecem a autoridade espiritual. Devemos nos submeter por delicadeza comum e por compaixão pela pessoa que se encontra nessa situação difícil. É muito angustiante estar numa posição de autoridade e saber que nossas raízes não têm profundidade suficiente na vida divina para comandar com autoridade espiritual. Conheço a sensação frenética que faz uma pessoa empertigar-se, esbaforir-se, e imaginar truques inteligentes para induzir as pessoas à obediência. 

O Senhor Jesus nos deu o único critério de autoridade válido no seu reino: o serviço (Mt 20:25-28). Aqueles que contam com o discernimento evangélico concedido aos que andam no Espírito, reconhecem e naturalmente se submetem àqueles que têm autoridade espiritual. Com o serviço vêm a humildade e a sabedoria. Tal sabedoria do alto se faz necessária, e conquanto a autoridade espiritual venha acompanhada de poder, sua confirmação se dará justamente no uso sábio e adequado deste poder, que não subjugará, explorará ou manipulará os outros, mais os servirá e os ajudará na caminhada com Cristo. 

Artur Leonardo Gueiros Barbosa

sábado, 25 de junho de 2011

Pais e Filhos


Quando eu era filho em companhia de meu pai, então ele me ensinava e me dizia: Retenha o teu coração as minhas palavras; guarda os meus mandamentos e vive. Pv. 4: 3,4.

Filhos rebeldes, desrespeitosos, afastados de Deus, sendo seduzidos pelo mundo é algo que sempre existiu e que nunca deixou de ser alvo da angústia paterna e materna. No entanto, faz-se necessário diferenciar quando os problemas com os filhos surgem em lares cuja educação procura refletir a Cristo e a palavra de Deus, de quando os problemas são fruto de incoerência, de mau exemplo, de uma disciplina descuidada, frouxa, que despreza a Sabedoria (Sl. 19:7). No primeiro caso, o problema surge apesar da criação, já no segundo, por causa dela. 

Infelizmente, tem se tornado uma cena comum hoje em dia testemunhar crianças - de todas as idades - responderem aos pais, aos avós, ofendendo-os,  sem serem repreendidos ou disciplinados. Tem sido usual até mesmo a inversão de papéis, com os filhos mandando nos pais, determinando as suas vontades, quando e como as querem ver atendidas. É triste ver que muitos pais, desprezando diariamente o fiel testemunho cristão para com seus filhos - omitindo a disciplina e a repreensão (Pv. 3:12; 13:24)-, procuram ensinar-lhes cacoetes religiosos, mandamentos de homens (Mc. 7:13; Is. 29:13), com entusiasmo inverso àquele que usam para dar aos seus filhos um exemplo de relacionamento profundo, verdadeiro e sincero com o Senhor. 

Um pequeno exemplo que serve para ilustrar o equívoco cometido por muitos pais é o uso de nome de Deus em vão. Algo que seria impensável dentro da comunidade cristã há quinze, vinte anos atrás, hoje se tornou corriqueiro entre os crentes de todas as idades, homens, mulheres e sacerdotes (os institucionais e todos nós, como parte do corpo de Cristo). É como se o mandamento tivesse sido apagado da Palavra, como se Jeová, o Redentor, o Santo de Israel (Is. 48:17) não precisasse mais ser alvo da nossa reverência e temor. Pais que dão exemplo em casa e na rua têm muito mais condições de verem suas instruções obedecidas pelos filhos do que aqueles que são incoerentes.

Saindo da infância e analisando da pré-adolescência à vida adulta, percebe-se que o exemplo e a coerência paterna (pai e mãe), em existindo, abrem as portas para outras ações que ajudam bastante no amadurecimento de um lar cristão saudável. Duas dessas ações são a abertura dos filhos para com os pais e a possibilidade de o filho ver-se desafiado em sua vida a realizar um propósito eterno. 

Aqui, o exemplo do rei Lemuel - explicitado no último capítulo de Provérbios - é emblemático. Nele, vemos que os conselhos de sua mãe não apenas alertam o rei sobre situações e hábitos que podem levá-lo a esquecer-se do querer de Deus, mais principalmente o impulsionam à ação, o impedem de seguir no imobilismo e na falta de sentido, os quais são porta aberta para as tentações, as quedas e o conseqüente distanciamento de Deus. 

Abre a boca a favor do mudo, pelo direito de todos os que se acham desamparados. Abre a boca, julga retamente e faze justiça aos pobres e aos necessitados. Provérbios 31:8,9

O exemplo de Lemuel e sua mãe nos mostra a importância de um viver cristão que vai além do pietismo, que atenta para a Palavra sem seletividade, que se enxerga como agente transformador do mundo, para a Glória de Deus. A tarefa de fazer o mundo refletir os valores do Reino está sobre nós, Corpo de Cristo e a percepção desta enorme responsabilidade, sobretudo diante de uma realidade de injustiça, miséria e opressão como a que temos à nossa volta, faz com que nossos pensamentos, palavras e ações estejam voltados para cumprir a vontade de Deus na terra em todo o tempo. 

Assim, focados no que realmente importa, pondo-nos como obstáculo a todo o mal (Pv.8:13), e sem nos escondermos do nosso semelhante (Is. 58:7; Pv. 3:27), percebemos que pensamentos sombrios, tentações, fraquezas e desilusões empalidecem, não deixam de existir, mas perdem a força e a importância de outrora. Diante de uma vida de oração, amor pela palavra (Sl. 119:16-19), e ação que transforma a si próprio, ao próximo, e à realidade em seu entorno, as possibilidades de se deixar enlaçar decrescem na mesma proporção em que o relacionamento com o Pai amadurece.  Filhos que antes seriam tentados a tomar a forma deste século passam a se perceber como revolucionários de Deus, atuantes incansáveis na vivência e construção do seu Reino. O propósito transformador dá o tom de uma vida plena, em Cristo.  

O exemplo dá mais poder à palavra, a sabedoria (apesar de exigir dos pais paciência e fé) é mais eficaz que o legalismo, o cumprimento do grande mandamento inspira, impulsiona e renova, enquanto que a alienação traz amargura, desnorteia, desanima e enfraquece. 

Esta reflexão foi escrita por alguém que foi sempre disciplinado com amor, por amor e no amor, e que percebe os benefícios trazidos por essa disciplina fruto do temor dos pais pelo Senhor; alguém que aprendeu com os próprios pais a não colocar nada antes de Deus, nem mesmo os filhos. E que, por isso mesmo, pode hoje alegrar-se com a bendita herança espiritual recebida.

Fraternalmente em Cristo,

Artur Leonardo Gueiros Barbosa

Cristianismo e Política

O Evangelho, o senhorio de Cristo, se espraia por todos os aspectos de nossas vidas. Tudo pode e deve ser utilizado pelo cristão como instrumento de graça, como materialização do amor: um sorriso, um email, um olhar, um blog, um livro, um tweet, um abraço, um olá e, da mesma forma, a política. Ela nada mais é do que a ferramenta na qual as relações de poder se estabelecem; não se restringe a voto, candidatos, congresso etc, mas abrange o nosso dia-a-dia, nossas decisões, nossos posicionamentos.


O partido de Cristo é o Reino, seus valores são o parâmetro, e o objetivo final é a glória de Deus. Num estado democrático, a política é o instrumento pelo qual se dão as maiores e mais abrangentes transformações para o país. Toda e qualquer demanda ou pressão exercida pelos diversos atores sociais tem, necessariamente, que desembocar na política institucional para que tome forma legal atingindo, assim, todos os cidadãos. Como servos do Altíssimo, deveríamos buscar desenvolver um maior interesse pela política, explorar seu potencial como instrumento de transformação da realidade, refletindo os valores de Deus na sociedade.


A política deve ser cuidada pelos cristãos, aperfeiçoada, bem utilizada, e não, desdenhada. O fato de candidatos e partidos caírem em erro, não deveria nos surpreender; não temos nenhuma ilusão quanto ao estado de total depravação do homem e à luta contínua contra o pecado que tenazmente nos assedia. Pelo contrário, nossa relação com Deus - ao expor nossas fraquezas - nos impulsiona a aperfeiçoar a política, de maneira a dificultar que a ganância, a vaidade e o egoísmo humanos tenham espaço nas estruturas econômicas e sociais, gerando fome, miséria e dor. Nosso relacionamento com o Pai deve nos mover para políticas públicas que corrijam a vil miséria que insulta os céus, caso contrário, as pedras continuarão clamando, e o Senhor continuará usando ímpios para realizar a tarefa que nos foi endereçada. Multipliquemos, pois, o talento que nos foi confiado. Mas, chegando também o que recebera um talento, disse: Senhor, eu conhecia-te, que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste; E, atemorizado, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu. Respondendo, porém, o seu senhor, disse-lhe: Mau e negligente servo; sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei?Devias então ter dado o meu dinheiro aos banqueiros e, quando eu viesse, receberia o meu com os juros. Tirai-lhe pois o talento, e dai-o ao que tem os dez talentos. Porque a qualquer que tiver será dado, e terá em abundância; mas ao que não tiver até o que tem ser-lhe-á tirado. Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.


Preocupamos-nos mais com as conseqüências: aborto e homossexualismo, do que com as causas - objetização da mulher na mídia, abuso sexual de crianças, tráfico de seres humanos, qualidade dos programas de TV, desigualdade e opressão no campo e na cidade, exploração no trabalho, impostos injustos, juros bancários extorsivos, destruição da natureza. Enquanto Corpo de Cristo, temos que ser a materialização do amor de Deus na sociedade que nos cerca (na qual deveríamos estar inseridos), mostrando através das boas obras - “Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas.” -, que Deus se importa e que tem um plano melhor para o mundo. O Eterno exige que identifiquemos o mal (Informa-se o justo da causa dos pobres, mas o perverso de nada disso quer saber. Pv. 29:7) e o combatamos, onde quer que se manifeste, pois praticar a justiça é alegria para o justo, mas espanto, para os que praticam a iniquidade. Pv 21:15


Aborrecer o mal e colocar-se como prumo na construção de uma sociedade mais justa (Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão, para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito aos aflitos... Is 10:1,2.) e mais amorosa (O lobo habitará com o cordeiro,...; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará. Is 11:6) é um papel do qual não podemos nos furtar, e para o qual precisamos cultivar senso crítico e discernimento, fundamentais para a compreensão e a prática do Evangelho. A falta deles costuma gerar uma fé supersticiosa, cheia de medo, de dogmas e de autoritarismo, distinta da fé dinâmica vivida e pregada pelos reformadores (Ecclesia reformata semper reformanda).

Quando a igreja não tem discernimento histórico do seu papel, do que se passa no mundo, das correlações de força, das relações de causa e conseqüência, quando falta profecia (Pv 29:18), ela se afasta do pleno testemunho de Cristo. A Palavra e a história mostram que nem sempre a presença da igreja indica a presença de Jesus.  Os tristes exemplos das igrejas segregacionistas no sul dos EUA e na África do Sul, bem como as igrejas que apoiaram e deram suporte aos golpes militares na América do sul revelam isto. Se temos hoje dificuldade em entender nosso papel e compromisso diante da injusta realidade brasileira, a resposta se encontra em parte na nossa própria história eclesial, que sepultou, a duros golpes, o pensamento crítico e a reflexão, fazendo com que os erros do passado se tornassem os dogmas que engessam a compreensão e transformação do presente. Cabe-nos trazê-los (crítica e reflexão) à vida novamente, para que o Senhor nos guie pelas veredas da justiça, por amor do seu nome. Pois em Cristo, um outro mundo é possível.